Título: Estudo diz que ações reduzem consumo de álcool
Autor: Formenti, Lígia
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/05/2007, Vida&, p. A13
Estudo feito pela Faculdade de Medicina de Nova York traz, pela primeira vez, comparação entre políticas adotadas por governos para prevenir o abuso do álcool. O trabalho, publicado na última edição da revista científica online PLoS Medicine, mostra haver relação entre a adoção de tais medidas e a redução do consumo excessivo de bebida. Em alguns casos, porém, a proporção é bem abaixo do esperado.
A pesquisa serve de alerta para o Brasil num momento em que especialistas dão contornos finais à Política Nacional de Álcool e Drogas, a ser assinada nas próximas semanas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Entre as ações está a possibilidade de o governo financiar programas municipais para reforçar a fiscalização de venda e consumo irregular de bebidas alcoólicas.
O estudo publicado na PLoS Medicine faz uma análise das políticas adotadas por 30 países localizados na Europa, Ásia, América do Norte e Austrália, todos integrantes da Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OCDE). A Noruega foi a primeira colocada, seguida da Polônia e da Islândia.
O país com a pior classificação foi Luxemburgo, seguido pela Suíça. A terceira pior posição ficou com a Alemanha. Dois países chamaram atenção: Turquia, que alcançou o 12º lugar, e México, que ficou em 13º, duas posições à frente dos Estados Unidos. Os autores do estudo arriscam que a boa colocação do México se deve a duvidosos números de consumo. O resultado da Turquia, por sua vez, estaria relacionado ao baixo número de consumidores por conta da religião e costumes locais.
Para fazer o trabalho, a equipe analisou dados entre 2000 e 2005. Para cada política desenvolvida, deu uma nota com determinado peso. Essa pontuação seguiu recomendações contidas numa publicação da Organização Mundial da Saúde (OMS) em que se avalia justamente a eficácia de políticas de álcool.
TEORIA E PRÁTICA
O professor de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Ronaldo Laranjeira concorda com as justificativas dadas pelos pesquisadores para o aparente contra-senso de nem sempre as medidas adotadas atingirem o efeito desejado.
¿Há um fator cultural bastante importante, às vezes com influência maior do que as próprias políticas , mas é preciso ainda verificar até que ponto as medidas são de fato implementadas e, sobretudo, a qualidade dos números informados pelos governos.¿
Para Laranjeira, com o trabalho fica claro que uma política de álcool, por si só, não resolve o problema do abuso. ¿Essa constatação parece óbvia, mas não é. Muitas vezes, governos dão-se por satisfeitos em anunciar um punhado de medidas achando que assim o grave problema pode ser solucionado¿, diz. ¿É preciso avaliar de que tipo de ações estamos falando e, se, de fato, serão aplicadas.¿
Laranjeira afirma que muitas das estratégias têm eficácia reduzida, mesmo que adotadas de forma adequada. ¿A pesquisa divulgada agora torna claro que algumas ações, apesar de bem-intencionadas, têm pouco ou nenhum efeito sobre o consumo de álcool.¿ Entre elas, as que procuram incentivar o consumo responsável ou alertar para situações de risco a que a bebida expõe.
¿Há um consenso internacional de que ações educativas são importantes, mas não principais¿, observa. Como exemplo, ele cita a rotulagem nas garrafas das bebidas alcoólicas, que passaria a incluir advertências sobre os malefícios do abuso.
A exigência, que integra uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), cuja publicação é aguardada para os próximos dias, nem foi considerada por pesquisadores na elaboração do estudo. ¿Há tempos sabe-se que a medida tem efeito zero para prevenção. Trata-se de atitude que tem de ser cobrada das empresas, mas a natureza é absolutamente acessória¿, diz Laranjeira.
RESTRIÇÃO E CONTROLE
Na pesquisa, receberam maior pontuação (representada por estrelas) ações mais específicas, como a restrição da venda de bebidas alcoólicas em determinados locais, o controle do tipo de bebida em postos de venda, leis que restringem a venda de bebida a partir de determinada idade. Também receberam três estrelas medidas que aumentam o preço da bebida alcoólica e a detecção de pessoas que dirigem embriagadas, seja com uso de bafômetro ou outro tipo de exame.
A restrição da propaganda - prevista também na resolução preparada pela Anvisa e pivô de discussões acaloradas entre representantes do mercado de cerveja no Brasil e médicos - recebeu apenas uma estrela de importância na classificação elaborada pelos pesquisadores.
Laranjeira considera que as regras de restrição contidas no texto da futura resolução da Anvisa deixarão uma brecha para a indústria. ¿Se a restrição à propaganda for até as 20 horas, não haverá dúvidas de que a indústria vai fazer uma propaganda maciça entre esse horário e as 22 horas, quando há grande número de jovens assistindo à TV. Boa parte do atraso do dia pode ser compensado¿, avalia.