Título: Países ignoram propostas da OMC
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/05/2007, Economia, p. B7

Os quatro principais atores das conturbadas negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) - Brasil, Índia, Estados Unidos e União Européia - ignoraram as propostas feitas pela entidade. Os encontros estão ocorrendo nesta semana em Londres, longe da sede da OMC, em Genebra, para que nenhum detalhe seja vazado.

Na segunda-feira, a OMC publicou um texto com sugestões sobre onde deveriam estar as bases de um acordo agrícola. O autor do texto, o mediador das negociações agrícolas Crawfor Falconer, prevê que os americanos terão de aceitar um corte maior de subsídios (abaixo de US$ 19 bilhões) e os europeus terão de aceitar cortes em suas tarifas de importação acima de 50%.

Os europeus não estão satisfeitos com as exigências de cortes de tarifas de importação para bens agrícolas. E o embaixador dos Estados Unidos na OMC, Peter Algeier, se recusou a comentar o documento.

Em Londres, porém, os negociadores optaram por seguir a agenda prevista e não deram uma resposta direta ao texto da OMC. O governo americano ainda se recusou a dar um sinal de quanto poderia ceder.

Para tentar mostrar que estão comprometidos com a negociação, os EUA reapresentaram ontem em Genebra uma proposta de proibição quase total para os subsídios à pesca nos países ricos. O Brasil e outros países emergentes apoiaram a idéia, mas o Itamaraty alertou que a proposta ignora a questão dos países em desenvolvimento. 'As economias emergentes precisam ter o direito de desenvolver seu setor pesqueiro', afirmou um delegado brasileiro nos debates da OMC. O que Brasília sugere que é os países em desenvolvimento sejam autorizados a dar uma parcela dos subsídios a seus setores.

De qualquer forma, a proposta americana não foi o suficiente para convencer os emergentes dos problemas com a posição americana na Rodada Doha. Países como Índia e Indonésia não gostaram da idéia apresentada no texto de Falconer de que terão de aceitar que apenas 8% de seus produtos agrícolas sejam mantidos com tarifas altas. Nova Délhi queria 20%.

Outra fonte de preocupação, segundo um embaixador africano, foi a sugestão de Falconer para que os países em desenvolvimento abandonem a complexidade dos cortes de tarifas, exceções e flexibilidades e adotem um sistema mais simples, o que significaria abandonar mais de um ano de trabalho.

Para o ex-diretor-geral da OMC, Renato Ruggiero, um fracasso nas negociações da OMC poderia colocar em risco o sistema multilateral de comércio e faria com que acordos bilaterais entre países se proliferassem. 'O Brasil precisa ser um dos países a tomar a liderança do processo para impedir um colapso', afirmou. Segundo um participante das negociações, 'a idéia é ter um rascunho do acordo em junho e fechar o entendimento em julho'.