Título: Milhares protestam contra Estado islâmico
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Fonte: O Estado de São Paulo, 30/04/2007, Internacional, p. A9
Cerca de 700 mil pessoas tomaram ontem as ruas de Istambul para acusar o governo do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan de colocar em risco o secularismo do Estado turco e exigir que o partido governista pró-islâmico AK retire a indicação de seu candidato presidencial - o ministro das Relações Exteriores, Abdullah Gul. Apesar dos protestos e da ameaças das Forças Armadas de interferir no processo eleitoral, Gul reafirmou que mantém-se na disputa. ¿Está fora de questão eu retirar a minha candidatura¿, disse Gul.
A eleição presidencial é feita pelo Parlamento, controlado pelo AK, e embora o cargo de chefe de Estado seja cerimonial, na Turquia o presidente tem o dever de assegurar a manutenção do princípio laico do Estado.
Com gritos de ¿a Turquia é secular e assim permanecerá¿, os manifestantes carregavam bandeiras nacionais. Há duas semanas, um protesto semelhante na capital do país, Ancara, teve o apoio de 300 mil pessoas. A Turquia é um país de maioria muçulmana, mas seu Estado, fundado em 1923 por Mustafá Kemal Ataturk, é estritamente laico.
Muitos turcos temem que Gul utilize seus poderes como presidente (entre eles, o direito a veto) para ajudar o premiê Erdogan, seu aliado, a aprovar medidas que coloquem em risco a separação de Estado e religião. Os secularistas querem preservar a proibição do uso de véus islâmicos em locais públicos e repartições do governo. A mulher de Gul, Hayrunisa, entrou com uma apelação na Corte Européia de Direitos Humanos para conseguir o direito de usar o véu em uma universidade do país. ¿Não queremos uma mulher coberta com véu no palácio presidencial¿, disse uma das manifestantes.
EXÉRCITO SECULAR
Na sexta-feira, parlamentares da oposição boicotaram a primeira rodada de votação para a indicação de Gul e pediram para a Corte Constitucional do país anular o processo. No mesmo dia, o Exército ameaçou intervir nas eleições presidenciais e alertou o governo para controlar as influências islâmicas. Em comunicado oficial, as Forças Armadas do país afirmaram que ¿não se deve esquecer que o Exército turco também participa desse debate e é um dos defensores mais ferrenhos do secularismo¿. No sábado, o governo repreendeu a atitude militar e disse ser inconcebível o Exército desafiar os líderes políticos em um regime democrático. Há uma década, o Exército colocou seus tanques na rua em uma campanha que forçou o então primeiro-ministro, também pró-islâmico, a renunciar.