Título: Paulista constrói ponte com Planalto; Aécio não
Autor: Samarco, Christiane e Nossa, Leonencio
Fonte: O Estado de São Paulo, 19/04/2007, Nacional, p. A6
À parte do PSDB, o governador José Serra criou pontes de diálogo político com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com o governo e com o PT. E foi a estrutura que sustenta esse diálogo que deu vida, inicialmente como se fosse um balão de ensaio, à idéia de acabar com a reeleição para cargos executivos. O diálogo de Serra com Lula, o governo e o PT tem se dado em (poucas) falas telefônicas com o presidente e com contínuas e copiosas conversas com os deputados Arlindo Chinaglia (PT-SP), presidente da Câmara, e Cândido Vaccarezza (PT-SP).
Os dois - e alguns outros deputados do PT - têm elogiado Serra, para estranheza dos interlocutores que ouvem a louvação pela primeira vez. Eles também foram os principais aliados dos deputados Antonio Carlos Pannunzio, líder do PSDB, Jutahy Júnior (BA), Júlio Redecker (RS), líder da minoria, e Eduardo Gomes (TO) no balão de ensaio para catapultar o fim da reeleição. A idéia, para muitos tucanos e aliados, foi lançada numa possível combinação com Lula e o governo - a quem interessa confirmar antecipadamente que o presidente só ficará um mandato longe do Palácio do Planalto, ganhando caminho livre para ser candidato em 2014 ou 2015.
NEXO CAUSAL
Para muitos, o que causa espécie é o ¿nexo causal¿ entre a movimentação dos serristas na Câmara, ressuscitando a velha proposta de emenda constitucional apresentada por Jutahy Júnior em 2003, e a reação do governo, que incluiu o tema do fim da reeleição na reunião do conselho político do governo na próxima segunda-feira. Esse ¿nexo causal¿ significa, no mínimo, que os dois lados têm idéias extraordinariamente coincidentes, mas por trás disso suspeita-se de uma articulação.
Ninguém afirma, no PSDB, que Serra coordenou o balão de ensaio lançado por Pannunzio e Jutahy, mas muita gente afirma não ter dúvidas de que o governador, pelo menos, sabia da movimentação e não a conteve. No meio tucano, pouca gente acredita que o governador Aécio Neves (MG) tenha o mesmo envolvimento e interesse de Serra, embora também se posicione contra a reeleição.
Para muitos, Serra está sendo envolvido por movimentos que deputados ligados a ele - e que dizem falar em seu nome - fazem no Congresso, levando a acreditar que eles, de fato, representam o governador paulista. Um exemplo mencionado ontem foi a resistência que esse grupo de deputados serristas fazia à CPI do Apagão Aéreo no Senado. Ontem Serra passou por Brasília, sentiu o clima intensamente favorável à CPI de senadores e, com um telefonema, acabou com a resistência dos seus seguidores.
O que mais surpreende é que Aécio sempre pareceu mais próximo de Lula do que Serra, mas, com quatro meses de governo, o paulista se aproximou do governo federal com muito mais desenvoltura, possivelmente com o objetivo de obter apoio de Lula em 2010. Em 2006, os pré-candidatos do PSDB fizeram um pacto para abrir mão da reeleição, se vitoriosos. Os três - Serra, Aécio e Geraldo Alckmin - aceitaram, mas depois de escolhido Alckmin tergiversou.
Agora o tema volta à baila, hipoteticamente trazido por um - ou por dois - dos pactuadores daquela época. Mas o balão de ensaio foi rejeitado por boa parte da bancada federal tucana, num debate promovido por Pannunzio e Redecker anteontem. A inovação também não impressionou aliados naturais do PSDB. ¿Mexer agora no jogo da disputa presidencial é esperteza¿, disse ao Estado o líder do DEM, Onyx Lorenzoni (RS).
Para ele, qualquer mudança feita agora só pode valer a partir de 2014. ¿As regras de 2010 têm de ser as regras que temos hoje¿, afirmou. O deputado Arnaldo Jardim (PPS-SP) disse que é ¿um total equívoco começar a discutir a reforma política pelo fim da reeleição¿.