Título: Brasil endurece com Venezuela e Bolívia e ataca Opep do gás
Autor: Marin, Denise Chrispim
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/04/2007, Economia, p. B1
O governo brasileiro trombou com Venezuela, Bolívia e Argentina ao se opor, ontem, ao projeto dos vizinhos de formar um cartel no setor do gás. Com mais essa divergência, a 1ª Cúpula Energética Sul-americana terminou marcada por uma franca oposição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva às idéias de seu colega venezuelano Hugo Chávez. Eles já haviam discordado na questão do etanol e na criação do Banco do Sul.
Ontem de manhã, os ministros das Relações Exteriores, Celso Amorim, e de Minas e Energia, Silas Rondeau, desmentiram declarações de autoridades venezuelanas e bolivianas de que o Brasil havia solicitado adesão à chamada `Opep do Gás¿. Ao final da cúpula, Lula bateu com mais força.
¿Não se discutiu a adesão do Brasil à `Opep do Gás¿. O tema não foi discutido na reunião nem consta da declaração final¿, disse Lula. ¿Agora, como somos presidentes livres e democratas, cada um fale o que quiser pelos corredores¿, completou, em clara reprovação à atitude dos governos de Chávez e de Evo Morales, da Bolívia.
Segundo Silas Rondeau, o governo brasileiro apenas defendeu uma profunda discussão sobre a criação desse organismo, especialmente sobre a tendência de ¿formar preços¿ para o gás na América do Sul. ¿Se tivermos essa organização, que ela defina o melhor preço para que o gás promova a América do Sul, e não para criar um cartel¿, disse. ¿O Brasil também é produtor de gás, assim como o Peru e a Colômbia, que nos apóiam.¿
O estopim da divergência foi aceso com a divulgação de um comunicado do governo venezuelano, anteontem à noite, informando que os chefes de Estado haviam avaliado o alcance da `Opep do Gás¿.
O mecanismo foi criado em março, quando Venezuela, Bolívia e Argentina assinaram um tratado e anunciaram a disposição de aumentar o número de sócios. Na semana passada, a Venezuela frustrou-se na tentativa de seduzir os membros da Opep original, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a se somar ao novo cartel. Na manhã de ontem, o ministro boliviano de Energia, Carlos Villegas, disse que Silas Rondeau havia apresentado o pedido de adesão do Brasil.
¿Temos de regular os preços, a produção, o intercâmbio de experiências para melhorar os níveis produtivos e de transporte e também de industrializar o gás¿, afirmou Villegas à TV oficial da Venezuela. Questionado por repórteres, Villegas disse que não é intenção ¿cartelizar¿ o mercado, que ainda é muito ¿imaturo¿. Mas se contradisse.
¿Em longo prazo, conforme melhorar a tecnologia do setor, vamos transitar de um mercado regional para um mercado mundial de gás. Creio que seria conveniente e pertinente ter marcadores para regular os preços do gás em nível internacional.¿
Questionado sobre a posição da Bolívia, o chanceler Celso Amorim rebateu: ¿Não tem cabimento defender a `Opep do Gás¿ em uma reunião como esta. Se estamos envolvidos em um esforço de integração, não podemos dividir consumidores de produtores de gás. Ao contrário, temos de conciliar e harmonizar esses interesses.¿
ETANOL
Como uma bandeira de paz, Hugo Chávez confirmou, na abertura da reunião, que retomará as importações de etanol do Brasil. As compras, que superaram US$ 15 milhões em 2006, foram interrompidas em outubro.
Em um sinal de que não se oporia à expansão dessa produção na América do Sul, Chávez propôs que sejam construídas usinas de etanol ao lado das novas refinarias de petróleo. ¿Isso significará o cultivo de milhões de hectares de cana e de palma africana, para oxigenar a gasolina.¿ Animado, Lula insistiu em que não há competição entre a produção de alimentos e biocombustíveis e que a fome é um problema de falta de renda.
O documento final da cúpula prevê a instalação de um conselho, com sede no Equador, dirigido por um secretário executivo. Chávez lançou o nome do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, secretário-geral do Itamaraty, para o posto. Surpreendeu o próprio Guimarães e os chefes de Estado presentes.¿Continuo a ser apenas o secretário-geral das Relações Exteriores¿, disse Guimarães.
TIROTEIO
Carlos Villegas Ministro da Bolívia ¿Temos de regular os preços, a produção, o intercâmbio de experiências para melhorar os níveis produtivos e de transporte e também de industrializar o gás¿
Luiz Inácio Lula da Silva Presidente do Brasil ¿Não se discutiu a adesão do Brasil à `Opep do Gás¿. Agora, como somos presidentes livres e democratas, cada um fale o que quiser pelos corredores¿
Celso Amorim Chanceler do Brasil ¿Não tem cabimento defender a `Opep do Gás¿ numa reunião como esta. Se estamos envolvidos em um esforço de integração, não podemos dividir consumidores de produtores de gás¿.