Título: Serra tenta acalmar grupo de Alckmin
Autor: Amorim, Silvia
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/04/2007, Nacional, p. A16

O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), escalou dois tucanos para apagar um incêndio no partido entre os serristas e o grupo do ex-governador Geraldo Alckmin, diante da possibilidade de instalação da CPI da Nossa Caixa na Assembléia paulista. A comissão parlamentar de inquérito investigaria o suposto uso político de recursos do banco estadual na gestão Alckmin.

Alguns alckmistas não gostaram da posição de Serra sobre a investigação, determinada pelo Tribunal de Justiça no fim de março. O governador disse que não faria nada ¿nem para acelerar nem para segurar a CPI¿. A declaração foi interpretada como uma indiferença com o colega de partido - que passa uma temporada em Boston, depois da derrota na eleição à Presidência - e uma tentativa de enfraquecer Alckmin para a disputa no PSDB para escolha do candidato à Prefeitura de São Paulo em 2008.

O secretário de Relações Institucionais do governo Serra, José Henrique Reis Lobo, a pedido de Serra, telefonou anteontem para Alckmin nos Estados Unidos. ¿Serra e Alckmin estão profundamente irritados com essas notícias que apontam divergência por causa da CPI. Elas estão sendo produzidas por motivações que desconhecemos¿, afirmou Lobo, que coordenou a campanha dos dois tucanos no ano passado. Segundo ele, são improcedentes as insinuações de que as relações entre Serra e Alckmin se agravaram por conta da ameaça de CPI. A presidência da Assembléia Legislativa, comandada pelo tucano Vaz de Lima, promete recorrer.

Lobo afirmou ainda que o ex-governador entende a posição de Serra e concorda com o atual governador que a CPI é questão de ¿economia interna da Assembléia Legislativa¿.

Serra acionou o deputado Jutahy Júnior (PSDB-BA), que levou a membros da bancada tucana na Câmara esclarecimentos do governador e a negativa de que haja a intenção de desconstruir a gestão Alckmin.

Do lado do ex-governador, o deputado Edson Aparecido (PSDB-SP) também procurou Serra para pôr panos quentes na confusão. Embora haja um descontentamento no ninho alckmista com algumas atitudes de Serra, há um esforço para evitar a antecipação do enfrentamento quase certo em 2008. Por isso, a cada estranhamento, entram os bombeiros.

Assim como no partido e na Câmara, a bancada do PSDB no Legislativo paulista também está dividida entre alckmistas e serristas. Por enquanto, dizem os alckmistas, não houve nenhum movimento de retaliação daqueles mais alinhados a Serra. A escolha da liderança da bancada aconteceu sem problemas. Estavam na disputa os deputados Pedro Tobias, João Caramez - mais próximos de Alckmin - e Mauro Bragato, mais alinhado a Serra. Este acabou ficando com a vaga, após a saída de Tobias por problemas de saúde e a desistência de Caramez.

DISCURSO AFIADO

Serra nega a desconstrução apontada por alckmistas, mas algumas vezes, em seus discursos, não poupa a gestão do antecessor. Nesta semana, por exemplo, durante a inauguração de um piscinão no ABC, um comentário do tucano colocou em dúvida a condução das finanças do Estado por Alckmin. ¿Conseguimos botar as finanças em dia¿, destacou Serra, ao exaltar suas realizações nos primeiros 100 dias de governo.

No fim do ano passado, sempre que questionado sobre o rombo nas contas do governo, Serra negou que houvesse problema. O tom usado agora foi o mesmo dos tempos em que, prefeito de São Paulo, reclamava do que apelidou de ¿herança maldita¿ deixada pela petista Marta Suplicy.

Anteontem, no lançamento de conjuntos habitacionais, Serra também fez críticas à gestão anterior. ¿Historicamente há um problema de inadimplência na CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano). Mas nós estamos montando um esquema imune a isso.¿ Desde que assumiu, o tucano tem colecionado esses episódios. Já levantou a suspeita de haver funcionários fantasmas no governo e sua equipe admitiu que dados criminais foram alvo de manipulação.