Título: Franceses buscam hoje nas urnas a cura para a estagnação do país
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 22/04/2007, Internacional, p. A14

Os criadores do conceito político de ¿direita e esquerda¿ começam a escolher hoje o presidente que comandará o sexto mais rico país do mundo. Líder da União Européia, ao lado da Alemanha, a França terá em 2007 uma opção a mais, o centro, para buscar a saída da estagnação econômica e social na qual seus 64,1 milhões de habitantes estão mergulhados. Os desafios são consideráveis: superar as divergências partidárias, conter o déficit público, reduzir o desemprego (hoje em 9%) e crescer na média européia para apaziguar uma nação onde os conflitos sociais eclodem com freqüência e violência cada vez mais preocupantes.

Cientistas políticos vêem os distúrbios que ocorreram nas periferias em outubro e novembro de 2005 como o marco da campanha eleitoral à presidência da França. Na época, jovens inconformados com as mortes de dois adolescentes de origem árabe numa perseguição policial em Clichy-sous-Bois (arredores de Paris) se revoltaram contra o responsável pelo aparato policial, o então ministro do Interior Nicolas Sarkozy.

Hoje, Sarkozy - um advogado de 52 anos que se diz liberal e pró-EUA, mas na campanha se revelou nacionalista - lidera as pesquisas de intenções de voto dos franceses para a presidência. Mas nem sua participação no atual governo o faz defender a continuidade. Pelo contrário: Sarkozy se diz o candidato da ¿ruptura tranqüila¿.

A necessidade de romper com o passado é uma constante nos discursos dos três principais candidatos à presidência. Além de Sarkozy, têm chances de vitória a deputada e ex-ministra da Educação Ségolène Royal, 53 anos, do Partido Socialista, e o também ex-ministro da Educação François Bayrou, 55 anos, da União pela Democracia Francesa (UDF), que hoje se proclama de centro.

É em meio a essa profusão de projetos políticos, econômicos e sociais que os franceses esperam reencontrar o caminho do desenvolvimento sustentável. Para tanto, será preciso, de acordo com especialistas consultados pelo Estado, superar problemas estruturais. ¿É necessário conciliar a redução do déficit nas contas do Estado com a geração de emprego para aplacar a tensão social¿, diz Eric Eyer, diretor-adjunto do Centro de Pesquisas Econômicas (OFCE), em Paris.

O primeiro desafio será redinamizar o modelo francês, onde um Estado de bem-estar social intervencionista cobra do empregador um valor em impostos igual ao salário pago ao empregado e direciona esses recursos para programas de assistência social generosos.

Seus efeitos colaterais são burocracia, um déficit no orçamento de mais de 3% ao ano e o encarecimento da geração de emprego. Resultado: uma economia pouco competitiva, protecionista, deslocada do mundo globalizado e incapaz de criar uma quantidade suficiente de postos de trabalho.

¿Reduzir o déficit e flexibilizar o mercado de trabalho são a ordem do dia nos programas dos candidatos, mas não são as únicas soluções. É preciso investir mais em tecnologia e pesquisa¿, explica o economista Roger Guesnerie, diretor da Escola de Economia de Paris.

PROGRAMAS INCOERENTES

Para os candidatos, a República - a instituição mais cara aos franceses - está em crise. Mas se os problemas parecem consensuais, as respostas não o são. Daí a importância da eleição desde domingo. ¿Nenhum dos programas é completo. Vamos selecionar o menos incoerente¿, diz Guesnerie.

A dificuldade para o eleitor é entender como os planos de cortes de gastos poderão ser implementados, se Sarkozy projeta ¿61 bilhões em despesas sociais extras, e Ségolène, ¿ 62 bilhões, segundo o Instituto das Empresas, órgão apartidário que em fevereiro divulgou um balanço das promessas eleitorais. ¿Os candidatos propunham tudo sem considerar os custos¿, analisa Jean-Damien Pô, diretor de pesquisas do instituto.

Os programas de governo dos três candidatos chegam ao 22 de abril desacreditados. A insatisfação com a campanha, reprovada por 60% dos franceses, explica o índice de indecisos às vésperas da eleição, segundo Bruno Cautrès, cientistas político do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS). ¿Há tradicionalmente de 20% a 25% de eleitores que decidem seu voto nas últimas 48 horas. Neste ano, temos quase 40% de indecisos. Tudo pode acontecer.¿