Título: Ségolène surpreende e põe Sarkozy na defensiva durante debate na TV
Autor: Sant¿Anna, Lourival
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/05/2007, Internacional, p. A10

No primeiro debate presidencial em 12 anos na França, a candidata socialista Ségolène Royal avançou sobre o adversário, o direitista Nicolas Sarkozy, com uma ferocidade inesperada. Ao final do debate de 2h40, que foi esquentando até atingir o ponto de ebulição, Ségolène acusou Sarkozy de ¿imoralidade¿ por causa de sua posição em relação ao ensino para crianças com necessidades especiais.

¿A senhora tem a visão sectária da esquerda, de que todo mundo que tem opinião diferente da sua é imoral¿, reagiu Sarkozy, depois de alguns minutos de perplexidade. ¿Quem usa palavras que ferem divide o seu povo.¿ Foi o desfecho de um crescendo, no qual Sarkozy e Ségolène percorreram dezenas de temas, do desemprego à energia nuclear, e discordaram sobre praticamente tudo, numa discussão marcada pela divisão ideológica clássica entre direita e esquerda. Segundo uma enquete feita pelo site do Le Monde, a ferocidade de Ségolène deu resultado: para 51,5% de 43 mil internautas participantes, a socialista se saiu melhor. Apenas 36,8% preferiram Sarkozy.

O momento de maior tensão do debate ocorreu depois que Sarkozy, ex-ministro da Economia e do Interior do atual governo, observou que na França só 40% das crianças com necessidades especiais estudam em escolas normais. Ele planeja elevar esse índice a 100%, como ocorre no resto da Europa. ¿Estou escandalizada com o que estou ouvindo¿, interrompeu Ségolène - o que as regras do debate permitiam. ¿Criei 7 mil cargos de auxiliares de integração (para deficientes em escolas normais), e seu governo os suprimiu¿, acusou a candidata, que foi ministra de Ensino Escolar (1997-2000). ¿A senhora sai de si facilmente¿, advertiu Sarkozy. ¿A responsabilidade de um presidente é muito pesada.¿

Havia expectativa sobre como Ségolène, 7 pontos atrás de Sarkozy nas pesquisas, se portaria diante do adversário, conhecido pela língua afiada, ao passo que a socialista costuma ser mais suave e teórica. Após alguns instantes iniciais de nervosismo, em que falava consultando anotações, Ségolène ganhou segurança. Aos 15 minutos, começou a interromper Sarkozy, e não parou mais, deixando-o na defensiva e evitando que ele concluísse seus raciocínios. ¿Madame Royal, deixe-me responder¿, pedia Sarkozy. Ela não o chamou pelo nome em momento algum.

Sarkozy tentava conter a enxurrada de críticas de Ségolène ao governo do atual presidente Jacques Chirac e primeiro-ministro Dominique de Villepin, ambos de seu partido, exclamando: ¿É falso.¿ Já a socialista procurou dissipar a imagem de que suas posições são ideológicas e vagas, enquanto o direitista é concreto e pragmático. ¿Sou a presidente do que funciona¿, insistiu. Mas não conseguiu evitar responder a perguntas de Sarkozy com a frase: ¿Isso será negociado entre os setores.¿ Ao fim, ficou a confirmação de que a França está diante de duas escolhas profundamente diferentes.

FRASES

Nicolas Sarkozy

¿Nenhum país faz isso, socialista ou não. Nem seus amigos Blair e Zapatero. Não funciona¿ (sobre a jornada de 35 horas semanais)

Ségolène Royal

¿O que eu digo eu sei que funciona porque vi funcionar. Serei a presidente do que funciona¿

Nicolas Sarkozy

¿O que a senhora mudaria nas 35 horas? Ninguém entende. A senhora só diz generalidades¿

Ségolène Royal

¿Minha resposta é muito precisa: haverá negociação setor por setor¿.