Título: 'Política industrial terá envergadura'
Autor: Brandão Junior, Nilson
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/05/2007, Economia, p. B1
O economista Luciano Coutinho assumiu ontem a presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) defendendo uma política industrial de 'grande envergadura'. No discurso de posse, citou que essa foi a orientação que recebeu do presidente Lula . Coutinho declarou que dará prioridade aos projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com foco em inovação tecnológica e atenção especial aos setores automobilístico, farmoquímica, serviço de informação e outros.
Considerado um dos mentores da Lei de Reserva de Mercado na informática, Coutinho fez questão de esclarecer que tipo de política defende: 'É uma política industrial intensiva em coordenação, financiamento, cooperação, inovação e tecnologia. Ela não é uma política industrial intensiva em protecionismo, em fechamento de mercado, em subsídio fiscal. Isso faz parte do passado, não faz parte da política industrial moderna há muito tempo. Agora, faz parte da política industrial moderna ter criatividade financeira, funding inteligente. E é nessa trilha que caminharemos'.
O ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, elogiou o discurso de Coutinho. Disse que ele fez 'discurso de longo alcance', que mostra o 'perfil do banco e suas as fronteiras'. Ele afirmou que o banco precisa 'ganhar velocidade' e espera que Coutinho possa 'mudar um pouco esse processo de aprovação de projetos'. Para ele, mesmo estando hoje entre seis e oito meses, esse prazo médio 'tem que ser mais rápido'.
Coutinho, indicado por Lula para o cargo, frisou que a orientação recebida foi a 'de colaborar com o Ministério do Desenvolvimento na implantação de uma política industrial de grande envergadura'. Citou, ainda, que a política já havia dado prioridade aos setores de microeletrônica, software e bens de capital e agora cabia ao banco 'encorpar muito essas iniciativas, mobilizar o setor privado, acelerar decisões e projetos'. Na entrevista, defendeu 'alargar' a abrangência da política.
Ele também comentou que o banco tem de participar da tarefa de coordenação de decisões em torno da política industrial, mas ressaltou que a formulação da política não é atribuição do banco, mas do ministério, e que cabe ao BNDES dar suporte. 'Então, vamos fortalecer, criando programas de maior envergadura.'
Coutinho abrangeu praticamente todos os setores da economia. Destacou que a indústria da transformação deve voltar a ser o 'motor propulsor' da economia. Afirmou que o esforço maior será apoiar o País no aumento da taxa de investimentos. Ao ser questionado sobre o fato de o BNDES não ter cumprido o orçamento de desembolsos nos últimos anos, explicou que o importante é que as liberações são crescentes. Para Coutinho, o momento é bom porque o País entra num ciclo de crescimento. Ele contou que os ministros Jorge e da Fazenda, Guido Mantega, pediram que o banco apóie os setores mais atingidos pela valorização do real.
Afirmou que tem expectativa positiva com relação à taxa de juros e comentou que, se dependesse da sua torcida, a taxa Selic cairia um pouco mais depressa - dizendo em seguida que o assunto não é da alçada do banco. A apresentação de Coutinho agradou a economistas e empresários. 'Ele fez diagnóstico muito preciso das vantagens e desvantagens que nós temos', disse o economista da Unicamp Luiz Gonzaga Belluzzo.