Título: França reinventa divisão esquerda-direita
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Fonte: O Estado de São Paulo, 29/04/2007, Internacional, p. A12

Dentro de uma semana, a França voltará às urnas para reavivar a oposição entre esquerda e direita. Pela primeira vez desde os duelos pela presidência entre François Mitterrand e Valéry Giscard d¿Estaing, em 1974 e 1981, em meio à Guerra Fria, socialistas e conservadores se opõem com projetos verdadeiramente antagônicos em questões cruciais como modelo de Estado e de desenvolvimento econômico, Justiça, trabalho e imigração.

Ainda que superficiais, segundo seus críticos, os programas de governo da deputada Ségolène Royal, candidata do Partido Socialista (PS), e do ex-ministro do Interior Nicolas Sarkozy, da União por um Movimento Popular (UMP), incendeiam a disputa pelo Palácio do Eliseu, sede do poder da sexta maior economia do mundo. Os olhos da Europa e de grande parte do mundo estarão voltados para Paris e para a reedição do confronto entre socialistas e conservadores nos próximos sete dias. Isso ocorre porque a França é tida como um dos últimos contrapontos ocidentais à política do liberalismo, comandada pelos EUA.

¿Ségolène e Sarkozy têm projetos de governo absolutamente diferentes, um com base nas intervenções do Estado, em um típico modelo socialista, outro sustentado no liberalismo, no individualismo e na virtude do trabalho¿, analisa Gérard Grumberg, diretor de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica e membro do Centro de Pesquisa Política, ambos em Paris.

As diferenças começam na república que cada um dirigirá. Disposta a marcar época à frente do Eliseu, Ségolène propõe o rompimento com a atual V República - instaurada em 1958 - a partir do lançamento de uma reforma institucional que redesenhe o Estado francês. Entre outras medidas, a proposta política prevê o fim do acúmulo de cargos para representantes eleitos, a extinção do direito de veto pelo Senado para temas constitucionais e a criação de um conselho multilateral com representação da sociedade civil com poderes de intervenção. A reforma é em parte inspirada no modelo aplicado pelo Partido dos Trabalhadores (PT) em Porto Alegre, nos anos 80 e 90.

Sarkozy prevê a manutenção da V República e mostra-se avesso à tendência dos socialistas de promover plebiscitos sobre grandes questões, como a Constituição Européia - que foi recusada em 2005, mas voltaria a ser apreciada em 2009, em caso de vitória do PS.

Em política economia, as diferenças se tornam menos nítidas. Sarkozy defende um projeto ora liberal, ora conservador e nacionalista. Ex-ministro das Finanças, ele propõe a redução de impostos e a flexibilização do mercado de trabalho como alternativas para o relançamento da economia francesa, quase estagnada pelo crescimento de 2% - abaixo da média da União Européia - e pela taxa de desemprego em torno de 9%. Sarkozy atribui à semana de 35 horas parte da desigualdade e da fratura social do país, fomentadas pelo desemprego dos jovens.

Já Ségolène - cujo projeto foi anunciado como social-liberal em novembro - acentuou durante a campanha suas ligações com a esquerda do partido. Suas declarações têm sido favoráveis à intervenção do Estado na regulação do mercado de trabalho, nas decisões de empresas privadas e no sistema bancário e financeiro - para especialistas, uma releitura da social-democracia defendida pelo PS francês. ¿Há claras diferenças de projetos, mas nada garante que os discursos de um ou de outro serão aplicados. Os franceses são conservadores. Não esperam mudanças bruscas¿, diz Jean-Pierre Drugeon, economista da Universidade Panthéon-Sorbonne e da Escola de Economia de Paris.

O problema de ambos os projetos, dizem cientistas políticos e economistas, é sua pouca profundidade. ¿Em economia, as propostas são superficiais e às vezes contraditórias e favoráveis ao aumento dos gastos públicos¿, diz Eric Eyer, diretor-adjunto do Centro de Pesquisas Econômicas.

Imigração, identidade, trabalho, desigualdade, educação, Justiça e punição de menores também opõem Sarkozy e Ségolène. O dia seguinte à posse será de medidas: o conservador, se vencer, pretende anunciar a criação do Ministério da Imigração e da Identidade Nacional e um projeto de redução da maioridade penal, enquanto a socialista prevê uma lei para conter a violência contra a mulher.