Título: Bayrou não oficializa apoio a Ségolène
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Fonte: O Estado de São Paulo, 29/04/2007, Internacional, p. A12
Se a deputada Ségolène Royal, candidata do Partido Socialista (PS) à presidência da França, esperava receber o apoio explícito de seu ex-adversário de centro François Bayrou no debate de ontem, terá de buscar alternativas para alcançar a vitória no segundo turno, no dia 6. Em uma discussão de 1 hora e 40 minutos, a socialista e o centrista se mostraram extrovertidos e sintonizados, com divergências restritas a temas como economia e gestão pública. Após o evento, contudo, Bayrou confirmou sua neutralidade. Ele rejeitou pedir votos para os socialistas e dizer em quem votará.
Inédito na V República - instaurada em 1958 -, o debate entre um candidato finalista e um eliminado no primeiro turno fez a França voltar-se à TV na manhã de ontem. Realizado em um estúdio improvisado no Hotel Westin, um dos mais tradicionais de Paris, o evento chegou a paralisar parte do trânsito em avenidas centrais da capital, tamanho o assédio de jornalistas durante a chegada e a partida da socialista.
A expectativa de Ségolène era receber uma palavra formal de apoio de Bayrou, que no primeiro turno da eleição havia obtido o terceiro lugar.
Às 11h17min (6h17min de Brasília), a transmissão em rede de rádio e TV foi iniciada. Na primeira questão apresentada pelos jornalistas, o suspense desmoronou. Ségolène tomou a palavra e acenou com o consenso, classificando o evento como ¿a modernização da vida política¿ e a ¿superação de barreiras partidárias¿. Em tom descontraído, Bayrou concordou, destacando que aceitaria um debate igual com ex-ministro do Interior conservador Nicolas Sarkozy, da União por um Movimento Popular (UMP), outro finalista da eleição. Em seguida, porém, deu as cartas: ¿Não estou aqui para me aliar a Ségolène, nem ela, imagino, a mim. Não vou entrar nesse jogo. Estamos criando um grande partido independente (o Partido Democrata) e não estou aqui para aconselhar o voto a ninguém.¿
A socialista reagiu com aparente tranqüilidade. ¿Também não estou aqui esperando conselho de voto. Estamos buscando identificar o maior número possível de pontos em comum em nossos programas.¿
A partir de então, em tom ameno, ambos discutiram temas como instituições políticas, União Européia e relações exteriores sem enfrentamentos prolongados. As primeiras divergências ocorreram sobre a autonomia e a política monetária do Banco Central Europeu e sobre a criação de um salário mínimo válido em todo o bloco econômico. ¿É indispensável¿, disse Ségolène. ¿Em qual nível?¿, questionou Bayrou.
No tema seguinte, economia, os desentendimentos aumentaram. O centrista considerou os programas de esquerda e de direita contraditórios, já que pregam a redução do déficit do Estado, mas pressuporiam gastos extras superiores a ¿ 60 bilhões por ano. Em seguida, criticou Ségolène, cujo Pacto Presidencial - seu programa de governo - seria excessivamente baseado na interferência do Estado: ¿Deixem os parceiros sociais agirem¿, clamou. ¿O Estado não vai conseguir fazer tudo. Ele está endividado. É preciso reformá-lo.¿ Ségolène respondeu que conhecia de antemão os desacordos de ambos no assunto, que não via seu programa como intervencionista e Bayrou parecia conhecer bem o projeto socialista.
As dissonâncias seguiram sobre a aplicação da semana de trabalho de 35 horas. O centrista afirmou que Ségolène havia mudado, por pressão do Partido Socialista, de uma posição crítica em relação à redução do tempo de trabalho para uma defesa intransigente. A deputada rebateu, dizendo-se ¿uma mulher livre¿, antes de completar: ¿Vamos avançar rumo à generalização das 35 horas de maneira discutida e organizada.¿
Quando passaram a discutir violência e crise social, voltaram a multiplicar os pontos de acordo. Ao fim do debate, de quase 100 minutos, a socialista saudou o encontro com palavras de conciliação: ¿Há um certo número de questões sobre as quais poderemos trabalhar juntos.¿ Já Bayrou, questionado se havia decidido o que fazer na eleição do dia 6, foi direto: ¿Não. Vou escutar o debate entre os dois finalistas. Considero legítimo que o povo tenha tempo para escolher.¿
Grande ausente das discussões de Paris, Sarkozy, favorito para vencer a eleição, aproveitou a presença de jornalistas em sua campanha na cidade de Valenciennes para atacar a reunião dos adversários: ¿Eles discutem butiques e opiniões em um hotel em Paris. Eu estou aqui, em meio aos franceses.¿