Título: Crescimento forte e estabilidade. A economia peruana chegou lá
Autor: Dantas, Fernando
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/04/2007, Economia, p. B8
Fernando Jiménez, 30 anos, é chefe de manutenção de motores no porto de Callao, adjacente à cidade de Lima. Ele veio para capital peruana ainda como criança pobre, junto com a família, que emigrou de Trujillo, a 500 quilômetros de Lima, no departamento (unidade territorial) de La Libertad.
Numa quarta-feira, Jiménez caminha com suas duas irmãs e a sobrinha de um ano pelo shopping Mega Plaza. O conjunto de 138 mil metros quadrados, com 180 lojas, fica no meio do chamado ¿Cone Norte¿, uma zona de 2 milhões de pessoas na periferia de Lima, que à primeira vista parece um complexo interminável de favelas, como as que existem nas vias de saída do Rio de Janeiro (mas que se revela melhor urbanizado, depois de um olhar mais atento).
¿Aqui há lojas sofisticadas e cinemas, e nossa qualidade de vida melhorou muito¿, diz Fernando. O Mega Plaza, por onde passam 2,6 milhões de pessoas por mês, tornou-se um símbolo da ascensão social da classe média de origem popular no Peru. Este fenômeno vem na esteira do ótimo desempenho econômico nos últimos anos de um país mais conhecido pela pobreza e pelos surtos terroristas - e que, nas eleições de 2006, quase caiu nas mãos do populista Ollanta Humala, um militar controverso e ultranacionalista que venceu o primeiro turno em abril daquele ano, com 31% dos votos.
Para os que ainda colocam o Peru no mesmo saco de países como Venezuela, Bolívia e Equador, sacudidos por conflitos políticos e instabilidade econômica, alguns números devem surpreender. Nos últimos cinco anos, a economia peruana cresceu a uma média de 5,7% ao ano, ritmo que deve se acelerar para 7% no triênio 2005-2007. Em 2006, o PIB cresceu 8%, e o consumo de produtos e serviços como eletrodomésticos, celulares e restaurantes aumentou em ritmos da ordem de 20% a 35%.
Ao contrário de Venezuela e Argentina, porém, que também crescem velozmente, o Peru não tem nenhum problema inflacionário. Em 2006, a inflação foi de 1,1%, abaixo da meta atual de 2% do Banco Central. A taxa básica de juros, por sua vez, está em 4,5%. Esses números não só são os melhores entre as principais economias latino-americanas, como batem também os Estados Unidos - cuja inflação está em torno de 3%, com juros básicos de 5,25%.
¿Agora a economia está estável, acabaram os pacotaços (de aumento de tarifas públicas) e o dólar não sobe¿, diz um orgulhoso Fernando Jiménez.
O presidente Alan García, um político intuitivo e oportunista, depois de ter feito um dos governos mais desastrosos da história da América Latina no seu primeiro mandato, de 1985 a 1990 , optou desta vez por deixar o barco seguir na direção dos ventos positivos que já sopravam no governo do seu antecessor, Alejandro Toledo. García, que tomou posse em julho do ano passado, manteve e reforçou a política econômica, com escolhas ortodoxas e liberais para os postos-chave .
¿Existe um grande consenso hoje no Peru em torno da inflação baixa e das contas públicas equilibradas¿, diz o economista Oscar Dancourt, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Lima e ex-presidente do Banco Central, no governo Toledo.
García também está abrindo as portas para o investimento privado e estrangeiro, e jogando suas fichas na abertura comercial, com uma intensa agenda de negociações, a começar pelo acordo quase fechado com os EUA (falta a aprovação do Congresso americano). Na área de investimentos, há projetos de parcerias público-privadas (PPPs) de US$ 4,1 bilhões em andamento, e um cronograma de novos projetos em concessões e PPPs, para 2007 e 2008, de US$ 3,8 bilhões.
Esses investimentos abrangem áreas como transporte, combustíveis, telecomunicações, saneamento e turismo, petróleo e gás e mineração. Um dos maiores projetos de investimento no Peru é o da liquefação do gás natural do campo de Camisea, no valor de US$ 3 bilhões, que deve transformar o país em exportador no segmento.
O brilho da economia peruana estende-se aos setores fiscal e externo. Em 2006, o país teve um superávit nominal (isto é, incluindo o pagamento de juros) nas contas públicas de 2,1% do PIB, e a relação entre a dívida pública e o PIB caiu de 45% em 2003 para 27,8% no ano passado. A carga tributária é de apenas 19% .
Na área externa, o superávit em conta corrente do Peru atingiu 2,6% do PIB em 2006, e as reservas internacionais de US$ 19 bilhões correspondem a 20% do PIB (comparado com cerca de 12% no Brasil). Os bons números da economia peruana fazem com que o país seja visto pelos analistas como candidato ao próximo ¿upgrade¿ para a categoria de ¿grau de investimento¿ por duas das três agências internacionais de rating.
Um dos principais fatores por trás do boom econômico peruano é a alta internacional das commodities, que beneficiou os diversos minerais que o país produz e exporta. O Peru é o segundo maior produtor mundial de cobre e zinco, o terceiro de estanho e o sexto de ouro. As exportações de minérios, que incluem prata, chumbo e outros, correspondem a quase 64% das vendas externas totais do país.
Somadas à farinha de pescado, ao petróleo e gás, e a algumas commodities agrícolas, os minérios compõem a chamada pauta dos ¿produtos tradicionais¿, responsáveis por quase 80% das exportações peruanas.
As exportações são o grande motor do crescimento peruano, tendo saltado de US$ 7,4 bilhões em 1996 para US$ 28,7 bilhões em 2006, o que corresponde a 30% do PIB de US$ 93,5 bilhões. Alguns analistas, porém, temem que o ciclo de forte crescimento no Peru não resista a uma eventual reversão da alta dos recursos naturais no mercado global.