Título: Reunião vai discutir presença de países pobres no comércio mundial
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 28/04/2007, Economia, p. B23
Mais de cem países vão se reunir no Brasil a partir do dia 7 de maio para negociar um acordo sobre como garantir que países em desenvolvimento obtenham maiores ganhos com commodities e como transformar o boom dos preços em uma estratégia para lutar contra a pobreza.
Apesar de o País ser sede da reunião organizada pela ONU, nem todos no governo brasileiro vêem a possibilidade real de que acordos sobre commodities sejam estabelecidos. O governo preferiu evitar a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no evento. Já o governo europeu bancará a viagem de cerca de 50 delegações de países pobres à conferência.
Nos anos 70, as negociações sobre acordos que visavam estabelecer um nível para a produção de certas commodities dominaram o cenário comercial. Mas acabaram fracassando. Agora, a ONU acredita que há espaço para uma retomada e lançará no Brasil a Iniciativa Global de Commodities. O projeto visa adotar medidas para fortalecer o peso dos países em desenvolvimento no comércio.
Para a entidade, o momento é adequado diante do aumento dos preços de commodities e da demanda na China e na Índia, além da falta de avanços nas negociações da Organização Mundial do Comércio. Pelos cálculos dos economistas da ONU, os preços das commodities agrícolas, energéticas e minerais aumentaram em 80% entre 2000 e 2006, ainda que estejam em níveis inferiores aos dos anos 80. A demanda por etanol também deve ter um impacto nos preços das commodities nos próximos anos e a tendência de alta deve durar por mais uma década.
Segundo as Nações Unidas, 86 países dependem de commodities para garantir mais da metade de suas exportações, muitas delas no setor petrolífero - 50% das vendas em 38 países vêm de uma única commodity.
O problema é que, por enquanto, os benefícios dessa alta ainda não foram distribuídos a todas as camadas da população. '2,5 bilhões de pessoas dependem de commodities agrícolas e são quase todos pobres', afirmou Lakshmi Puri, economista da ONU. De acordo com ela, os países emergentes representam 47% das exportações de commodities, cerca de US$ 1,1 trilhão por ano. Enquanto isso, um produtor agrícola em países em desenvolvimento recebe em média entre 4% a 10% dos lucros do que vende. Nos anos 80, recebia 17%.
'A questão que trataremos em Brasília é como esses países podem tirar vantagem desse boom temporário dos preços para combater a pobreza. ', disse Puri.
A estratégia incluirá não apenas uma administração do comércio de cada produto para evitar a volatilidade dos preços, mas investimentos em transporte e infra-estrutura. Outro ponto será aumentar a produtividade para conseguir concorrer contra os bens subsidiados dos países ricos.