Título: Lula e Kirchner discutem energia
Autor: Palacios, Ariel e Guimarães, Marina
Fonte: O Estado de São Paulo, 28/04/2007, Economia, p. B9

Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Néstor Kirchner analisaram ontem em um breve encontro em Buenos Aires os problemas energéticos regionais e suas eventuais soluções. Poucos minutos antes de embarcar no avião presidencial rumo ao Brasil, Lula disse que no dia 15 de maio será realizada em Brasília uma reunião bilateral para avaliar as várias possibilidade energéticas, 'entre elas o etanol, a energia hidrelétrica, a nuclear e até a eólica'.

Segundo Lula, tanto ele como Kirchner possuem 'a certeza' de que ambos os governos precisam 'discutir a situação energética com mais profundidade'. Lula afirmou que o Brasil e a Argentina ainda não exploraram 'o potencial que temos para trabalhar'. Segundo ele, o desenvolvimento de várias fontes de energia é importante 'para que os dois países possam aumentar sua independência no setor energético'.

O presidente negou que ele e Kirchner tenham avaliado a resistência do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, ao desenvolvimento de biocombustíveis na América do Sul. 'Não falamos de Venezuela nem de etanol. Até porque a política do etanol existe no Brasil há 30 anos. E é uma política que cresceu.' Segundo Lula, o Brasil estará na vanguarda ecológica, já que 'o mundo, para cumprir o Protocolo de Kyoto, terá que despoluir os combustíveis existentes. Portanto, precisará misturar etanol ou outro tipo de biocombustível. É questão de tempo.'

Lula minimizou as críticas que Chávez fez recentemente aos biocombustíveis, recordando que a Venezuela 'é um comprador do etanol brasileiro. Recentemente comprou três navios carregados de etanol. Além disso, quer fazer um contrato de longo prazo para importar o produto.'

O presidente destacou que 'o Brasil não quer uma política de etanol só para o Brasil. O que queremos é que na discussão do biocombustível pensemos como desenvolver os países mais pobres da América Latina e também do continente africano. Possivelmente, a agroenergia possa permitir que países que há 300 anos são pobres conquistem um pouco de dignidade econômica.'

O governo Kirchner está começando a se interessar pela alternativa do biocombustível, já que suas reservas de gás e petróleo começam a mostrar sinais de queda. Nos últimos três anos, com um custo político e econômico elevado, Kirchner tentou driblar de várias formas a crise energética argentina.

BANCO DO SUL

O polêmico Banco do Sul foi outro dos assuntos presentes na mesa de discussões entre Lula e Kirchner. Lançada pelo presidente Chávez, respaldada enfaticamente pelo governo boliviano e apoiada por Kirchner, a instituição é encarada com ceticismo no Brasil, Uruguai e Paraguai.

'É preciso discutir qual a finalidade desse banco; ou seja, se é um banco de financiamento, qual será a participação dos países, e como será essa participação. Para criar um banco, a gente precisa de uma instituição de muita credibilidade', enfatizou Lula.

Lula sustentou que a criação dessa entidade financeira de grande magnitude só será possível 'se forem resolvidas todas as divergências políticas sobre o banco'.

O presidente disse que o Brasil 'não terá problema algum em fazer parte do Banco do Sul se o ministro da Fazenda, Guido Mantega, voltar da reunião de ministros da Fazenda (que será realizada) em Quito (no dia 3 de maio) convencido de que o banco pode ajudar a América do Sul. Mesmo porque o Brasil já participa da Corporação Andina de Fomento (CAF) e tem o BNDES'.