Título: O espectro que ronda o Ipea
Autor: Okubaro, Jorge J.
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/05/2007, Economia, p. B2

Desde sua criação, há 43 anos, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) tem sido um importante centro de estudos e reflexão sobre os problemas brasileiros. Os trabalhos de sua equipe vêm balizando muitas análises sobre a realidade nacional, sugestões de políticas públicas por instituições privadas e, sobretudo, ações do governo. A autonomia dos pesquisadores é essencial para a reconhecida qualidade de seu trabalho.

Seu futuro, porém, gera temores. A criação da Secretaria de Ações de Longo Prazo - à qual o Ipea ficará vinculado e na qual toma posse hoje o professor Roberto Mangabeira Unger, com status de ministro de Estado - é vista com apreensão pela equipe do Ipea. Os pesquisadores temem a perda da autonomia e a transformação do instituto em braço de ações político-eleitorais do governo. Se isso ocorrer, será ruim para o País.

Bastaria lembrar um pouco da história do Ipea para mostrar sua importância, não apenas acadêmica, mas também política, em sentido amplo. Na primeira metade da década de 1970, o período mais negro da ditadura militar, a imprensa esteve sujeita a severa censura. Críticas, de qualquer natureza, aos governantes em todos os níveis de governo e às políticas e ações governamentais eram sistematicamente proibidas. Até mesmo temas econômicos faziam parte da lista de assuntos que não podiam ser tratados em público naquela época. Um desses temas era a concentração de renda no País.

A despeito do regime de censura prévia a que estavam submetidos os jornais e as emissoras de rádio e televisão, travou-se naquela época um debate intenso sobre esse tema. E o foco do debate estava dentro do governo que impunha a censura. Estava no Ipea. Curiosamente, o Ipea é fruto do regime militar. Criado em 1964, como um escritório de planejamento, foi transformado, dois anos depois, em instituto, tendo como presidente o economista, e mais tarde ministro do Planejamento, João Paulo dos Reis Velloso.

Entre seus pesquisadores estava um engenheiro com doutorado em Economia de nome Pedro Sampaio Malan, mais tarde presidente do Banco Central e um dos ministros da Fazenda que mais tempo permaneceram no cargo no período republicano. Os estudos que Malan publicou na revista do Ipea forçaram o governo, por meio de funcionários ou de economistas a ele ligados, como o ministro Delfim Netto e o professor da FGV Carlos Langoni, a se manifestar publicamente sobre o tema, em entrevistas ou livros.

Também do Ipea saíram algumas das críticas mais fundamentadas ao 2º Plano Nacional de Desenvolvimento Econômico, elaborado no governo Geisel (1974-1979) por uma equipe coordenada pelo então ministro do Planejamento, coincidentemente o mesmo economista Reis Velloso, que fora o primeiro presidente do instituto.

Uma consulta à página principal do Ipea na internet (www.ipea.gov.br) dá uma boa idéia de sua produção atual. Nos destaques, estão trabalhos que apontam os desafios da Previdência no Brasil e analisam a recente queda da desigualdade de renda no País (quase 30 anos depois, o tema, como se vê, continua a preocupar os pesquisadores do Ipea, agora, felizmente, para examinar não a concentração de renda, mas o seu oposto). Nas publicações mais recentes, estudos sobre as novas atividades exportadoras do Brasil e a infra-estrutura das escolas brasileiras de ensino fundamental, trabalho que toma por base os censos escolares realizados entre 1997 e 2005.

Nas notícias, o destaque é o custo da violência. Mortes violentas trazem dor aos familiares das vítimas, em muitos casos geram indignação até entre desconhecidos e sempre impõem custos, às famílias e ao País. Talvez pareça insensibilidade excessiva tratar as mortes violentas apenas pelo lado econômico-financeiro, como faz este trabalho, elaborado por quatro pesquisadores do Ipea, e concluir que, com base em dados de 2001, elas custam anualmente R$ 20,1 bilhões em termos de perda de capital humano. Mas este é mais um dado, além dos que a imprensa vem mostrando em profusão nos últimos tempos, que precisa ser considerado para o País enfrentar com coragem e competência o problema.

É para isso, e para muitas outras coisas, que tem servido o Ipea. O País torce para que ele continue a servi-lo, e não apenas a interesses político-partidários.