Título: Papa 'satisfeito' recebe críticas
Autor: Mayrink, José Maria
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/05/2007, Vida&, p. A14

O papa Bento XVI desembarcou ontem em Roma ¿satisfeito¿ com a viagem ao Brasil, segundo seus assessores mais próximos. Em rápida conversa com os jornalistas brasileiros no vôo, disse que estava ¿feliz com a acolhida¿. O papa quer agora tirar férias para refletir sobre os dias que passou no Brasil e como poderá vir a reforçar pontos que vaticanistas apontam como tendo ficado em ¿segundo plano¿.

O papa Bento XVI não deu uma resposta à Igreja brasileira e latino-americana sobre como frear a fuga de fiéis em direção às seitas evangélicas. A avaliação é de um dos principais vaticanistas de Roma, o italiano Marco Politi, que há anos acompanha as viagens de papas pelo mundo.

Para o especialista, a viagem de Bento XVI ficará marcada na história de seu pontificado como tendo sido fundamental para a compreensão de como ele pretende conduzir a Igreja. ¿Este papa não aceitará um autocrítica da Igreja, como fazia João Paulo II¿, acredita.

¿Essa viagem foi muito importante, pois ele esclareceu quais serão as direções de seu pontificado e a orientação que irá adotar sobre vários temas. Mas foi abstrato ao tratar, por exemplo, da preocupação com os regimes autoritários na região¿, analisa Politi. ¿E ele foi ainda mais abstrato ao tratar da perda de fiéis. Não basta apenas culpar o secularismo, relativismo e indiferença. Ele deveria debater por que é que nas favelas há dez movimentos evangélicos ante apenas uma paróquia. Ou por que muitos padres não estão dispostos a viver nas favelas, enquanto os pastores evangélicos estão.¿

DESEMBARQUE

Faltavam 20 minutos para a aeronave da Alitalia pousar em Roma - vinda de São Paulo - quando os assessores do papa Bento XVI chamaram os jornalistas brasileiros que acompanhavam o pontífice em seu avião, entre eles o Estado, para uma audiência privada. Sentado na primeira classe do Boeing 777 e olhando a vista pela janela, Bento XVI recebeu, na ala privativa, um por um, por instantes, na poltrona vaga a seu lado.

Confiante e com o sentimento de dever cumprido no Brasil, Bento XVI fez agradecimentos ao povo e à imprensa. ¿Agradeço a forma como fui recebido¿, disse. Com voz serena, elogiou a juventude brasileira. ¿Os jovens são muito importantes no Brasil¿, disse, em italiano.

O papa reafirmou estar ¿feliz¿ com a viagem e, apesar dos longos dias de atividades e eventos, mostrava-se bem de saúde e até corado pelo sol de Aparecida. Sempre olhando diretamente nos olhos e ensaiando um sorriso, segurava nas mãos das pessoas com que falava.

Em sua ala reservada, também estavam o secretário de Estado do Vaticano, Tarcisio Bertone, alguns cardeais, seu segurança particular e assessores. Antes que cada um ocupasse a poltrona ao lado do papa, os assessores do pontífice repassavam o protocolo: gravata e terno exigidos, credenciais de jornalista retiradas, como saudar o papa e até mesmo como se sentar para permitir o diálogo e até uma foto. No final do breve encontro, o papa deu sua bênção e desejou sorte.

Momentos depois, o avião pousava em Roma, concluindo assim a viagem mais longa já realizada por Bento XVI em seus dois anos de papado. Após os cinco dias de viagem no Brasil, 12 discursos contundentes e 19,5 mil quilômetros percorridos, Bento XVI agora quer férias.

Suas atividades marcadas para até sexta-feira foram canceladas. Segundo um de seus secretários, o papa quer tempo para descansar e refletir. ¿Ele está muito satisfeito e feliz com a viagem. Mas pediu para descansar e ter tempo para pensar sobre sua viagem ao Brasil e sobre o que ouviu e viu¿, explicou Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano.

Um dos eventos cancelados é a tradicional audiência pública que o papa concede todas as quartas-feiras. Estava agendado que Bento XVI falaria sobre sua viagem ao País e suas impressões sobre os eventos de que participou.