Título: O sedutor que se tornou um parceiro rabugento
Autor: Lapouge, Gilles
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/05/2007, Internacional, p. A17

Desta vez ele vai partir, e não chegará ao fim de seu terceiro mandato em 2009. Em 27 de junho, ele cederá o posto a seu ministro da Economia, Gordon Brown. Esse procedimento havia sido previsto há dez anos quando Tony Blair, após uma carreira fulgurante, se tornava primeiro-ministro. Os dois homens haviam-se comprometido com a alternância no cargo, mas o tempo passava, e Blair se aferrava, se aferrava, enquanto Brown esperava, esperava.

Por fim, Blair rendeu-se. Ele só respeitou o pacto quando sua popularidade degringolou. Estranho percurso. No início, quando, aos 43 anos, esse homem eloqüente, seguro de si, cativante e sedutor se tornou primeiro-ministro, foi um conto de fadas. Dez anos mais tarde, as fadas deram no pé. Tudo que restou foi um tête-à-tête morno, rabugento, amargo entre o povo britânico e seu sedutor.

Eis a agonia desses 10 anos: a longa história de uma ¿magia¿. O mágico usa suas melhores habilidades, mas não adianta. Veredicto de uma sondagem de opinião recente: ¿Blair perdeu todo contato com o país.¿

Blair reabilitou o mercado, atirou-se à globalização, etc. Ele inventou a Terceira Via, um modelo político fascinante, impressionante, que, além disso, funciona. A economia ronca como um pião. A próspera Inglaterra (graças a Brown) suplanta todos seus rivais. As conquistas de Margaret Thatcher foram preservadas, mas Blair se empenhou em consertar os rasgos produzidos no tecido social. E veio o fracasso: a sombra se estendeu sobre os pobres. A dívida das famílias atinge 2 trilhões.

Mas a verdadeira ruptura entre Blair e seu povo surgiu com a guerra do Iraque. Fascinado por George W. Bush, Blair se convenceu de que o horizonte da Inglaterra é o ¿vasto mundo¿, como dizia Winston Churchill. Blair esperava um retorno triunfante da Inglaterra ao cenário mundial, mas ela volta estropiada. O carnificina iraquiana fez de Londres o alvo ensagüentado dos terroristas islâmicos.

Ele permaneceu surdo e colado em Washington que, aliás, não lhe deu nenhuma atenção, nem o recompensou por isso. A Inglaterra trata seu chefe como um ¿cãozinho¿ de Bush e quando se revelou a manipulação do relatório que parecia provar que Bagdá dispunha de armas de destruição em massa, o especialista David Kelly se suicidou.

Não foi esse o único drama a macular o reinado de Blair. Enquanto ele se dizia ¿o mais puro dos puros¿, escândalos eclodem ao seu redor. Abre-se uma investigação sobre o financiamento dos trabalhistas. Vergonha! Demissões se sucedem. Escândalo das vendas de títulos. ¿A preferência de Blair pelos ricos é desestimulante¿, escreve a revista New Statesman. Ministros se dão mal. Ganham destaque especialidades sexuais bastante bizarras de alguns ministros de Blair.

Um último prego é cravado nas eleições locais de 4 de maio. Na Grande Londres, 19 conselhos municipais passam dos trabalhistas para os conservadores. E pior: o Partido Nacional Escocês torna-se o partido dominante no Parlamento da Escócia. ¿A Inglaterra parece cada vez mais dois países¿, diz o jornal The Daily Telegraph. E a Escócia torna-se assim uma ¿granada destravada¿ que Blair vai confiar a Brown. ¿A Escócia talvez ainda não tenha se decidido sobre a sua independência¿, diz o jornal The Independent, ¿mas essa possibilidade será uma `espada de Dâmocles¿ sobre a cabeça de Gordon Brown¿.

¿Que atoleiro!¿ deploram os últimos sustentáculos de Blair. Poucas vezes um homem tão abençoado pela sorte desceu a ladeira tão rápido. E como poderá Brown segurar o cetro se ele, apesar das discussões freqüentes com seu chefe, era fiador das mesmas posições, como, por exemplo, sobre a guerra do Iraque?

¿O Iraque permanecerá para sempre ligado ao nome de Blair¿, disse The New Statesman. Todo mundo o sabe, salvo o principal interessado. Em seu discurso de despedida aos trabalhistas, Blair se contentou em evocar ¿o fim dos regimes repressivos no Afeganistão e no Iraque¿. Mas seria simples demais imputar a responsabilidade a um único homem. O fracasso foi coletivo. Todos os membros do governo de 2003, entre eles Brown, serão julgados pela História pelo papel que desempenharam nesse assunto.

Pobre Gordon Brown! Fazia tanto tempo que ele esperava, enquanto obtinha resultados econômicos formidáveis e os oferecia de presente a seu feliz rival. E eis que quando Blair larga finalmente o cargo, o país que ele deixa cair nos braços de Brown sofre um profundo mal-estar com essa guerra purulenta e inexplicável, com a dúvida nos espíritos e uma situação econômica degradada. O Partido Trabalhista degringola nas pesquisas. O líder dos Conservadores, David Cameron, coleciona sucessos. Tony Blair, o homem que ressuscitou o Partido Trabalhista vencendo três eleições sucessivas, lega a seu ¿amigo¿ Brown um partido em plena desordem.