Título: Papa Bento XVI e Lula abençoado
Autor: Macedo, Roberto
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/05/2007, Espaço Aberto, p. A2
Na segunda-feira, ao tocar no que gostaria de conversar com Bento XVI, Lula afirmou que pretendia, sobretudo, discutir as políticas sociais que desenvolve. Segundo este jornal, afirmou também que gostaria de ver o papa como um propagandista das ações sociais brasileiras. Textualmente: ¿Como pessoa mais importante da Igreja Católica, pode ajudar a disseminar essas boas políticas para o mundo, onde a Igreja Católica tem um papel importante.¿ Portanto, o papa que se cuide, pois, não satisfeito em ampliar a base aliada no Congresso, Lula também quer incluí-lo entre seus legionários, no grupo que trata de seu prestígio pelo mundo.
Entretanto, se tomado pela humildade pregada pelo cristianismo, melhor faria se agradecesse as bênçãos recebidas enquanto presidente. Entre as econômicas, não enfrentou crises externas nem apagão de eletricidade, ao contrário de seu antecessor. Pegou ótima fase da economia mundial e, impulsionada por ela, a economia brasileira oscilou menos e cresceu um pouquinho mais que o muito pouco que cresce há tempos. Enfim, choveu na lavoura de Lula, que hoje vê as plantas menos murchas. Entretanto, sem essa humildade, atribui a si todo o mérito pelo resultado e o engrandece além do seu real significado.
No encontro deveria levar os diretores do Banco Central, também abençoados pelas circunstâncias, pois o dólar barato fez, via seu impacto nos preços, muito mais que os juros para reduzir a inflação. Um resultado que, entretanto, atribuem só à sua política monetária.
Sem falsa modéstia, Lula poderia até dizer que: ¿Na história recente, nunca houve neste país e na sua economia um presidente tão abençoado quanto eu.¿ De passagem, também poderia confessar, entre outros, o pecado de não ter aproveitado melhor essa bênção.
Contudo, para um efetivo diálogo, seria bom ter em mente que Bento XVI tem grande prestígio como teólogo. Assim, o papa pode puxar conversa como tal, quem sabe entregando a Lula uma cópia de sua encíclica Deus Caritas Est e um livro seu, Verdad, Valores, Poder (Editora Rialp: Madrid, 1998), ainda assinado como Joseph Ratzinger, e do qual soube pelo professor José Maria Rodriguez Ramos, da Faap.
São particularmente adequadas para a leitura de Lula, até porque ela poderá servir-lhe de penitência. Com o novo mandato obtido nas últimas eleições, seu governo se entendeu absolvido do escândalo que enfrentou ao final do primeiro. Ora, o terceiro capítulo desse livro aborda o conceito de democracia, afirmando que não é apenas um mecanismo de eleição e votação, e que este não garante que o governante estará seguindo um caminho capaz de assegurar a verdade e a justiça. Estas não são produtos da política expressa pela maioria. ¿A política é justa e promove a liberdade quando serve a um sistema de verdades e direitos que a razão mostra ao homem.¿
Na discussão, lembra Pilatos, que, procurando legitimar-se politicamente, deixou o julgamento de Jesus por conta da multidão, levando, assim, a seu assassinato legal. Isso, embora Jesus, ainda que reconhecendo o poder judicial representado por Pilatos, ponderasse que o poder não vinha dele por si mesmo, mas do alto. Ou, como no texto, ¿... de uma ordem mais alta, que vem da verdade¿.
Nessa visão, o Estado precisa ir além da legitimização pelo voto e da garantia das liberdades individuais. ¿Necessita de uma medida sem a qual a liberdade (individual ou da maioria) se converte em violência contra os demais. E prossegue: ¿Não sem razão, os que buscam um domínio totalitário provocam uma liberdade individual desordenada e um estado de luta de todos contra todos para poderem se apresentar depois, com sua ordem, como verdadeiros salvadores da humanidade.¿
Visto de outra forma, o fim do Estado não é ¿garantir a mera liberdade sem conteúdo¿, pois precisa de ¿um mínimo de verdade e de conhecimento do bem que não pode se submeter à manipulação¿. Nesse estágio, o texto recorre a Santo Agostinho, o qual diz que sem isso o exercício do poder se degrada no nível de um bando de malfeitores que pode até funcionar, mas não leva a uma justa ordem da sociedade e do Estado. Essa citação é repetida na referida encíclica, na qual transparece a influência do texto anterior de Ratzinger.
E mais: quanto à magnitude imprescindível de ¿conhecimento e verdade sobre o bem, o Estado deve tomá-la de fora. Esse ¿de fora¿ poderia ser, no melhor dos casos, a pura evidência da razão, que seria cultivada e custodiada por uma filosofia independente. Entretanto, na prática não há nenhuma evidência racional pura e independente da História. A razão moral e metafísica só é eficaz num contexto histórico, do qual é dependente e ao qual, simultaneamente, ultrapassa. Todos os Estados reconheceram e aplicaram taticamente a razão moral das tradições religiosas anteriores a eles, as quais também servem para a educação moral¿.
O texto conclui que na sua função, que deve ser de fora do Estado, ¿a fé cristã tem-se revelado como a cultura religiosa mais universal e racional... e prossegue oferecendo à razão o sistema... de conhecimento... que constitui o fundamento de uma fé moral... sem a qual nenhuma sociedade pode subsistir¿.
Neste momento em que o papa visita o Brasil, chega perto de seu rebanho no País e conversa com Lula, talvez seja pedir muito, mas é o caso de solicitar trabalho ao novo santo, Frei Galvão. Isso para fazer com que nossos políticos e seus partidos, em particular o presidente e o seu, se reencontrem com princípios como os compartilhados pela fé cristã. Para infelicidade geral da Nação, enquanto dentro do Estado nossos políticos e partidos freqüentemente deixam esses princípios de fora, como se não pertencessem ao mundo em que exercem o poder