Título: Bolívia ameaça não vender gás à TermoCuiabá
Autor: Monteiro, Tânia
Fonte: O Estado de São Paulo, 19/05/2007, Economia, p. B16
A ausência de garantia da Bolívia quanto ao fornecimento do volume de gás necessário para a TermoCuiabá operar em capacidade máxima abriu uma nova ¿peleja¿ bilateral. O governo brasileiro ameaça desautorizar a usina térmica a pagar o preço redefinido em fevereiro passado - de R$ 4,20 por milhão de BTUs -, caso a administração de Evo Morales não se comprometa, por escrito, a manter um suprimento de 2,2 milhões de metros cúbicos diários. Trata-se do volume previsto no contrato da usina com seus fornecedores privados - hoje submetidos às deliberações da estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB).
A situação torna-se crítica à medida que avança o período de seca no Centro-Oeste brasileiro. Nessa época, a TermoCuiabá funciona em plena carga e necessita dos 2,2 milhões de metros cúbicos para gerar cerca de 480 megawatts (MW) médios. A usina responde por 70% da demanda de energia elétrica de Cuiabá (MT).
¿Concordamos em aumentar o preço do gás, desde que fosse mantido o fornecimento do volume previsto no contrato. Agora, a Bolívia nos diz que está com dificuldades para garantir essas remessas¿, afirmou uma fonte próxima ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. ¿Insistimos que a Bolívia tem de garantir os 2,2 milhões de metros cúbicos diários para que possa mos pagar os US$ 4,20. Se não há como garantir o volume, não há como garantir o preço.¿
O novo imbróglio com a Bolívia vem a se somar à expropriação do fluxo de caixa das duas refinarias de petróleo da Petrobrás no país, determinada no dia 6 pelo presidente boliviano, Evo Morales. Essa iniciativa levou a Petrobrás a optar pela sua retirada completa desse setor, com a venda das unidades por US$ 112 milhões para a YPFB, em duas parcelas. A nova peleja confronta-se também com o acordo fechado em fevereiro passado, durante a visita de Evo ao presidente Lula.
Na ocasião, a delegação boliviana obteve o aval do governo brasileiro para a elevação do preço do gás fornecido à TermoCuiabá, de US$ 1,19 para US$ 4,20 por milhão de BTU (unidade térmica britânica usada para medir o volume de gás). Evo Morales conseguiu extrair também do governo Lula um reajuste disfarçado para o volume de 26 milhões de metros cúbicos ao dia que a Bolívia envia à Petrobrás, no Brasil.
O acordo previu que o gás metano continuaria com o preço anteriormente fixado - de US$ 4,20 por milhão de BTU. Mas os gases e líquidos com maior valor calorífico, que também escoam pelo Gasoduto Brasil-Bolívia, seguiriam a cotação internacional. Nas contas do governo boliviano, esse cálculo significará o pagamento adicional de US$ 100 milhões pela Petrobrás à Bolívia neste ano.