Título: PF proporá delação premiada a dono da Gautama
Autor: Mendes, Vannildo e Nossa, Leonencio
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/05/2007, Nacional, p. A4

A Polícia Federal e o Ministério Público vão oferecer o benefício da delação premiada, com redução de pena, ao empresário Zuleido Soares Veras, dono da construtora Gautama, em troca de informações que ajudem a desvendar toda a rede de corrupção investigada pela Operação Navalha.

Desde quinta-feira essa operação prendeu 47 pessoas. Seis delas já tiveram a prisão relaxada - entre os quais José Reinaldo Tavares, o ex-governador do Maranhão e hoje inimigo de José Sarney. O esquema movimentou R$ 170 milhões em três anos, segundo a PF. A máfia das obras é acusada de desvio de verbas públicas, por meio de fraudes em licitações e liberação de verbas.

Detentor de informações valiosas, Zuleido é um dos detidos que devem permanecer mais tempo preso, para evitar que, solto, destrua provas e prejudique as investigações.

A estratégia de negociar benefícios jurídicos com cabeças de quadrilhas funcionou nos casos dos réus Luiz Antônio Vedoin, do inquérito dos sanguessugas, que investigou esquema de compra de ambulâncias superfaturadas, e Marcos Valério, operador do escândalo do mensalão.

A iniciativa funcionou também com Maurício Marinho, o ex-chefe do Departamento de Administração dos Correios, flagrado em vídeo enquanto embolsava propina.

Discreto e conhecido por seu sangue-frio, Zuleido, segundo pessoas que o conhecem, dificilmente aceitará a proposta. Por isso, caso a oferta seja recusada, as esperanças da PF se concentram nos mais de 500 quilos de papéis, computadores, DVDs, CDs, disquetes, agendas, celulares, pastas, planilhas, livros contábeis e documentos apreendidos durante a operação em nove Estados e no Distrito Federal.

Trazido para Brasília, esse material começa a ser analisado hoje pela Divisão de Inteligência da PF, com a ajuda de peritos do Instituto Nacional de Criminalística (INC). A análise dos dados servirá para levantar provas contra os acusados, detectar contradições de defesa e subsidiar os interrogatórios, que começam hoje, no Superior Tribunal de Justiça (STJ), sob o comando da ministra Eliana Calmon.

As atenções recaem agora principalmente sobre a descoberta, em meio ao material apreendido na sede da Gautama, em Salvador, de uma relação de políticos, com anotações de valores e presentes ao lado dos seus nomes. Como informam policiais que participam das investigações, a relação inclui parlamentares e até governadores.

FOLHA B

Os documentos contêm a contabilidade legal da Gautama e uma paralela, chamada ¿folha B¿, que teria a lista de políticos que teriam recebido propina em dinheiro, presentes - inclusive carros de luxo - e vantagens pessoais para aprovar emendas em favor da construtora, fraudar concorrências e agilizar a liberação de recursos.

Na hipótese de conter parlamentares federais, com direito a foro privilegiado, o inquérito subirá para o Supremo Tribunal Federal (STF).