Título: Confrontos matam 50 no Líbano
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/05/2007, Internacional, p. A8
Tropas libanesas entraram ontem em choque com militantes islâmicos num campo de refugiados palestinos perto da cidade muçulmana sunita de Trípoli, no norte do Líbano. Pelo menos 50 pessoas morreram no mais violento combate interno desde a guerra civil (1975-90).
À noite, a explosão de uma bomba diante de um shopping center no bairro de Ashrafieh, setor cristão de Beirute, matou uma mulher de 63 anos e feriu outras 12 pessoas. Vários veículos foram danificados pela explosão de uma bomba colocada embaixo de um automóvel. Nenhum grupo assumiu a autoria do atentado.
Vinte e cinco soldados e 15 militantes do Fatah al-Islam - um grupo suspeito de ter ligações com a Al-Qaeda - morreram nos confrontos, que começaram ao amanhecer no campo de refugiados de Nahr al-Bared, durante operação policial contra um apartamento ocupado pelos radicais, que apresentaram resistência. Segundo fontes médicas, 10 civis, entre eles 2 crianças, também foram mortos e 60 ficaram feridos.
O Líbano abriga 350 mil refugiados palestinos que, em sua maioria, deixaram suas casas após a criação do Estado de Israel, em 1948. O campo de Nahr al-Bared tem mais de 40 mil refugiados. Os combates acrescentam um fator de desestabilização ao Líbano, que em julho e agosto do ano passado enfrentou 34 dias de guerra entre Israel e o movimento Hezbollah e atualmente vive uma crise política que opõe o governo apoiado pelo Ocidente e a líderes pró-Síria.
Alguns funcionários do governo libanês dizem que o Fatah al-Islam - uma cisão do movimento palestino Fatah - é uma célula da inteligência militar síria que busca desestabilizar o Líbano.
O ministro de gabinete Ahmad Fatfat disse que o confronto com o Fatah al-Islam - que, segundo o governo libanês, recebe apoio da Síria - teria como objetivo prejudicar os esforços da ONU para criar um tribunal internacional para julgar os suspeitos do assassinato do ex-primeiro-ministro Rafic Hariri, em 2005. Uma investigação da ONU implicou a Síria e funcionários libaneses no atentado a bomba. Damasco nega envolvimento no caso. A Síria anunciou ter fechado temporariamente as duas passagens na fronteira com o Líbano por questões de segurança.
Tanques do Exército cercaram o campo e rolos de fumaça podiam ser vistos no céu enquanto uma barragem de artilharia era disparada contra posições do Fatah al-Islam. Os militantes revidaram ao ataque e os confrontos prosseguiram até a tarde de ontem.
O grupo radical acusou o Exército libanês de lançar o ataque sem nenhum motivo. ¿Advertimos o Exército libanês das conseqüências de contínuos atos de provocação contra nossos mujahedin (combatentes islâmicos), que abrirão as portas do inferno contra o Exército e todo o Líbano¿, disse o Fatah al-Islam num comunicado enviado por fax para a agência Reuters.
As autoridades disseram que a operação que provocou os confrontos era parte de uma busca policial de suspeitos de um assalto a um banco em Amyoun, cidade a sudeste de Trípoli. Os ladrões levaram US$ 125 mil em dinheiro.
CRISE CRESCENTE
14/2/2005 - Atentado mata o ex-primeiro-ministro Rafic Hariri
26/4/2005 - Últimos soldados sírios deixam o Líbano
19/6/2005 - Aliança anti-Síria liderada pelo filho de Hariri, Saad, vence as eleições parlamentares
20/10/2005 - Investigação da ONU conclui que funcionários de alto escalão da Síria e aliados libaneses estiveram envolvidos na morte de Hariri
12/7/2006 - Hezbollah captura dois soldados israelenses, desatando uma guerra de 34 dias na qual foram mortas 1.200 pessoas no Líbano e 158 em Israel
11/11/2006 - Cinco ministros xiitas pró-Síria renunciam
21/11/2006 - Ministro da Indústria Pierre Gemayel é morto a tiros. ONU aprova plano para criar tribunal para julgar envolvidos na morte de Hariri.