Título: Os ressentimentos paraguaios
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 25/05/2007, Notas e Informações, p. A3

A breve visita que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez ao Paraguai no início desta semana foi bastante proveitosa em todos os sentidos. O presidente Nicanor Duarte, ao final do encontro, declarou que nunca um governante brasileiro visitara o Paraguai com uma disposição de colaborar como a demonstrada por Lula. De fato, foram assinados 18 acordos de cooperação e ficou explícita a política brasileira de ajudar, no que for possível, o crescimento da economia paraguaia. Ampliaram-se, concretamente, as possibilidades de estreitamento de relações políticas e econômicas com um dos sócios menores do Mercosul, que nos últimos tempos se queixava de ter ficado à margem do processo de integração.

Mas, do ponto de vista brasileiro, o que houve de mais proveitoso - pela advertência que contém - poderá ter sido a oportunidade que o presidente Lula e seus principais auxiliares tiveram de assistir a uma demonstração de antibrasileirismo de violência inédita.

Pode-se dizer que os surtos de antibrasileirismo que se observam na Venezuela, na Bolívia e no Equador foram como que raios em céu azul. Um sentimento que era latente, de repente, por razões conjunturais - o aparecimento de líderes populistas que precisavam encontrar adversários externos para consolidar suas posições domésticas -, veio à tona naqueles países. E os sinais de que algo ia mal não foram devidamente interpretados ou considerados pelo governo brasileiro, que se fiava na liderança ¿natural¿ do Brasil e na excelência da diplomacia presidencial. Deu no que deu, principalmente na Bolívia.

Já no Paraguai o antibrasileirismo tem raízes históricas e é bandeira de poderosas forças políticas. O jornal ABC Color é o principal porta-voz dessas forças. Na véspera e no dia da visita de Lula a Assunção, ele publicou virulentos editoriais na primeira página. No primeiro, depois de afirmar que o ¿infame¿ Tratado de Itaipu submete o povo paraguaio a um ¿roubo descarado¿, adverte que essa situação cria ¿frustração e ódio contra a impiedosa e tirânica política brasileira em relação a nosso país¿. E acrescenta: ¿Os governantes brasileiros, exploradores e colonialistas, não devem permitir que o descarado roubo da eletricidade paraguaia continue alimentando o ódio e o antagonismo contra seu povo.¿ Insinua, finalmente, que a ¿recuperação da soberania¿ pode dar-se pela violência. No editorial seguinte, o ABC Color saúda: ¿Lula chega com seus espelhinhos.¿ Considera que os acordos que seriam assinados ¿são simples espelhinhos sem valor, como séculos atrás os conquistadores ganhavam a amizade e a boa vontade dos nativos¿. Finalmente, lembra que ¿os povos jamais esquecem as injustiças a que são submetidos pelas nações mais poderosas¿ e que a injustiça ¿conduz à violência¿.

O ABC Color sempre combateu o Tratado de Itaipu, principalmente depois da queda do ditador Alfredo Stroessner. Mas nunca havia usado essa linguagem desabrida nem incitado à violência, como agora. É preciso considerar, também, que essa retórica carbonária é endossada pelas poderosas forças da oposição nacionalista, que podem ter sucesso nas urnas, e atende aos interesses de setores da economia, desde os que vivem da indústria subsidiada aos que se sustentam com contrabando e pirataria.

O recrudescimento do sentimento antibrasileiro já produz resultados práticos. O presidente Nicanor Duarte, em discurso público, dirigiu-se diretamente ao presidente Lula, afirmando que ¿é preciso buscar um grande acordo político para mudar os termos do tratado (de Itaipu), buscar mais justiça e igualdade no acordo, no curto e médio prazos, para refletir o que significa Itaipu para o Paraguai¿.

Esse assunto não estava na pauta de discussões e é claro que o presidente Duarte fez aquelas declarações pressionado pela virulência com que o assunto passou a ser tratado pela oposição. Antes que se chegasse a esse ponto, o governo paraguaio não estava preocupado com uma revisão do Tratado de Itaipu. Reivindicava, apenas, uma revisão do preço da energia que é comprada pelo Brasil e um alívio - já concedido - nos juros incidentes sobre o financiamento da usina.

Tudo isso recomenda que Brasília se prepare para uma temporada de manifestações e atividades antibrasileiras também no Paraguai.