Título: Oposição abre outra comissão no Senado
Autor: Samarco, Christiane
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/05/2007, Nacional, p. A4
A oposição obteve vitória dupla sobre o governo no Senado ontem. A CPI do Apagão Aéreo só será instalada hoje de manhã, mas o atraso de 24 horas na abertura da apuração dos senadores rendeu o compromisso dos governistas em torno da abertura de mais uma comissão parlamentar de inquérito: a CPI das ONGs. Além disso, foi mantido acerto fechado na véspera, pelo qual a relatoria da CPI do Apagão ficará com o DEM, apesar de o acerto ter sido selado com base em outro cenário, que não contava com duas CPIs simultâneas.
¿Fizemos mais uma concessão à oposição, numa hora em que estamos fortes. Não entendo por que desfazem um acordo e a gente cede de novo¿, queixa-se o senador Inácio Arruda (PC do B-CE), da base governista.
Mais cedo, os petistas também haviam protestado. A líder Ideli Salvatti (PT-SC) não se conformava com o recuo do líder do DEM, que antes concordara em deixar para o futuro, sem data marcada, a abertura da CPI das ONGs. ¿Não podemos ficar correndo de um lado para o outro, naquela loucura do corredor de CPIs que enfrentamos na legislatura passada¿, ponderou Ideli.
O argumento da petista não foi sequer levado à reunião de líderes governistas e partidários com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), ontem à tarde. A opção do governo foi manter o acordo selado com a oposição, que dará ao senador Tião Viana (PT-AC) a presidência da CPI do Apagão, ficando a relatoria para Demóstenes Torres (DEM-GO).
¿O Tião disse que aceitaria ser presidente da CPI sob a condição de que a investigação se restringisse aos fatos concretos do acidente com o avião da Gol, das causas do apagão e da corrupção na Infraero. Isso, para mim, é mamão com açúcar¿, disse Demóstenes ao final da reunião, ao lembrar que são exatamente esses três pontos que estão no requerimento que pede a abertura do inquérito.
Na verdade, o único responsável pela decisão de instalar a CPI das ONGs no dia 5 de junho foi o autor da proposta, senador Heráclito Fortes (DEM-PI). Reunidos na véspera para marcar a data de abertura da CPI do Apagão, os líderes aliados e de oposição não manifestaram interesse em investigar a relação das ONGs com o governo federal. O assunto só voltou à pauta da reunião dos líderes, ontem à tarde, porque Heráclito exigiu de público, no microfone do plenário do Senado, que Renan tomasse as providências para instalar a CPI, como manda o regimento.
O comentário geral nos bastidores foi de que esse inquérito não interessava a ninguém, porque todos os partidos tinham suas fundações e ONGs, embora o objetivo da oposição fosse investigar repasses de recursos federais para as organizações ligadas ao PT. Foi exatamente o que a líder do governo no Congresso, senadora Roseana Sarney (PMDB-MA), argumentou. ¿Se vocês quiserem, a gente instala essa CPI hoje mesmo. Dou agora os nossos nomes, porque isso não tem nada a ver com o governo¿, desafiou Roseana. ¿Todo mundo tem a ganhar e tem a perder com essa CPI¿, advertiu a líder.
Foi a senha para que, diante da insistência de Heráclito, que participava da reunião, todos os líderes concordassem em estabelecer prazo de 20 dias para indicar seus representantes. ¿Agora, só nos resta tentar ganhar mais uns 20 dias de prazo para iniciar os trabalhos, depois da indicação dos nomes¿, conformou-se o governista Inácio Arruda.