Título: 'Para quem vive de salário é bom'
Autor: Monteiro, Tânia e Fernandes, Adriana
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/05/2007, Economia, p. B3

A percepção de que o dólar mais barato aumenta o poder de compra da população está provocando uma onda de euforia no governo e colocou em ritmo lento a adoção de medidas para beneficiar setores afetados pelo câmbio. Ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que 'o dólar mais baixo é bom para uns, ruim para outros e, certamente, para quem vive de salário é bom'. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, que definiu a situação atual - com o dólar cotado a R$ 1,953 - como 'a melhor dos mundos', disse que o dólar mais baixo 'não é um artificialismo', e descartou o plano de um choque de importação para reverter a situação.

Mantega ressalvou que, se o governo perceber que está havendo abusos, poderá dificultar a entrada de produtos no mercado brasileiro, aumentando a alíquota de importação. Ele considera 'inadequadas' as comparações entre o momento atual - inflação em baixa, dólar baixo, real valorizado e crescimento econômico - ao período do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Naquela época, a política era de câmbio fixo até que o ex-ministro da Fazenda, Pedro Malan, adotou o câmbio flutuante, praticado até agora no País. 'Naquela época, sim, existia o artificialismo cambial.'

O presidente Lula, segundo o ministro, tem toda razão em dizer que o custo para o cidadão brasileiro cai com o dólar barato. 'Nunca houve um custo tão baixo em dólar. Isso constitui aumento do salário real.' Apesar dos efeitos positivos da valorização do real, Mantega admitiu que o Banco Central irá intervir quando constatar que está havendo alguma distorção ou abuso. Nos últimos meses, o BC tem recorrido a vários instrumentos para evitar uma desvalorização ainda maior do dólar.

Ele descartou a idéia de um 'choque de importações', como sugeriram o ex-ministro Delfim Netto e o ex-presidente do BC, Gustavo Franco. O choque significaria o governo reduzir drasticamente as alíquotas de importação para inundar o mercado interno de produtos importados e, com isso, provocar alta no dólar. 'Não há necessidade de choques de importação, não gosto de choques', afirmou Mantega. O secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior, Mario Mugnaini, disse que a proposta é 'inaplicável'. Para zerar as alíquotas do Imposto de Importação é necessária a concordância dos sócios no Mercosul. O bloco adota a Tarifa Externa Comum (TEC), aplicada a produtos importados de outros países.

Ele sugeriu que a intenção do governo é adotar medidas 'sem surpresas' e disse que as importações já estão crescendo, 'de forma extraordinária'. A valorização do real não significa, segundo Mantega, que o 'dólar está afundando'. Apesar da euforia em relação aos assalariados, o governo não desistiu de analisar alternativas para amenizar o impacto negativo da valorização do real para alguns setores da economia. Mas Mantega deixou claro que as medidas ainda demoram.