Título: Imigração é desafio para EUA
Autor: Lowenthal, Abraham F.
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/05/2007, Internacional, p. A22

O anúncio de que dez destacados republicanos e democratas do Senado dos EUA chegaram na semana passada a um acordo sobre uma proposta para reforma da imigração é um passo importante em um processo confuso, que pode ou não levar a uma mudança.

Os EUA vêm recentemente aproximando-se de políticas antiimigração incrivelmente restritivas. A Lei da Barreira de Segurança, homologada pelo presidente George W. Bush no ano passado, determina a construção de um muro na fronteira sul dos EUA, para impedir que mexicanos, centro-americanos e outros entrem ilegalmente no país. A Câmara já tinha aprovado anteriormente uma lei considerando crime a presença não autorizada de imigrantes ilegais e impedindo o acesso deles a diversos serviços sociais.

Várias cidades consideram hoje ilegal a locação de apartamentos para residentes sem autorização, dificultam o acesso deles a serviços sociais e não permitem que obtenham carteira de motorista. Como centenas de milhares de moradores sem visto de entrada nos EUA abrem contas bancárias usando documentos de identidade emitidos pelos consulados, o Congresso está agora considerando uma nova lei que obriga os bancos a exigir comprovante de residência legal no país.

Hoje, quase 12 milhões de pessoas sem autorização legal vivem nos EUA e apenas um número muito pequeno de ilegais foi deportado. Apesar da cerca, do policiamento da fronteira e dos grandes investimentos em equipamentos, centenas de milhares de imigrantes ilegais entram nos EUA a cada ano.

Além disso, quase nenhum empregador americano foi processado nos últimos anos por contratar imigrantes ilegais, que têm um papel vital na economia. A maioria dos americanos se opõe à imigração ilegal e rejeita uma anistia geral, mas reconhece a contribuição desses imigrantes e é contrária às deportações em massa. Os americanos são ambivalentes: cada vez mais dependentes do trabalho realizado pelos imigrantes, mostram-se desconfortáveis quanto à perda de controle das fronteiras do país e ansiosos em relação às questões de identidade, linguagem e cultura.

Especialistas da área de mídia, liderados por Lou Dobbs, da CNN, passam o dia fazendo comentários antiimigração, mas o apelo de seus programas cresce apenas nas regiões onde a presença de imigrantes vem aumentando rapidamente a partir de uma população pequena, e não nas áreas onde os imigrantes já estão estabelecidos.

Na Califórnia, onde 27% dos habitantes nasceram fora dos EUA, a atmosfera mudou radicalmente em relação à época da Proposta 187, de 1994 (que nega benefícios aos imigrantes ilegais), quando a economia do Estado foi abalada pela desaceleração da indústria militar no pós-Guerra Fria. Hoje, muitos californianos refletem sobre qual a melhor maneira de integrar e educar os imigrantes para garantir que eles ajudem a manter a competitividade econômica do Estado.

O novo livro Boomers and Immigrants, do demógrafo Dowell Myers, defende a tese de que a capacidade da geração baby-boomer de receber suas aposentadorias, vender suas casas a bons preços e viver confortavelmente dependerá de um investimento significativo na educação, saúde e produtividade dos imigrantes, independentemente de seu status legal.

Desde o começo de sua presidência, Bush se mostrou favorável a uma lei para expandir programas de trabalhos temporários e oferecer uma opção de cidadania para os imigrantes ilegais que já moram no país, mas evitou uma anistia oficial.

Sendo pouco provável que Bush termine seu mandato com algum legado positivo identificável, a menos que realize uma ampla reforma na legislação imigratória, o presidente insiste em defender essa causa. Bush, no entanto, tem pouco capital político, e poucos democratas e republicanos têm motivos para lhe proporcionar algum legado.

As políticas de imigração variam enormemente de distrito para distrito, mas poucos membros do Congresso, que estão sempre tentando reeleger-se, vêem algum benefício em defender essas reformas. As considerações imediatas e a longo prazo também são conflitantes, à medida que os estrategistas políticos observam uma crescente participação eleitoral latina, que deve punir quem defende restrições contra imigrantes.

Esse é o contexto no qual líderes do Senado conseguiram chegar a um acordo que tenta reconciliar tanto as preocupações dos empregadores, dos sindicatos, dos residentes ilegais e de suas famílias quanto às de segurança na fronteira. O acordo oferece aos atuais imigrantes ilegais um caminho para a legalização, exigindo que eles paguem multas e sejam submetidos a análises de antecedentes.

Dessa maneira, o acordo evita uma simples anistia, estabelecendo um amplo programa de trabalhadores temporários que atende à demanda de empregos e tenta fortalecer o patrulhamento das fronteiras com mais medidas de seguranças. A proposta de reforma reconhece a imigração como uma corrente necessária e irreversível - e tenta aceitá-la, controlá-la e regularizá-la.

Não está claro, no entanto, se esta abordagem será aprovada pelo Congresso. Já existe a articulação tanto de opositores conservadores, que vêem a proposta como uma anistia ¿na prática¿, quanto de lobbies pró-imigração que temem que os direitos de reunificação de família sejam prejudicados e os trabalhadores temporários se tornem população de segunda categoria. As próximas semanas revelarão se o Congresso está pronto para reformar um sistema de imigração que todos consideram falido, mas a nova proposta já é um bom começo.