Título: Se a China espirrar, o mundo...?
Autor: Rocha, Marco Antonio
Fonte: O Estado de São Paulo, 28/05/2007, Economia, p. B2
Quando os EUA espirram, o mundo pega pneumonia, dizia-se até algum tempo atrás. Hoje, talvez isso se aplique à China. Bastou o ¿bruxo¿, Alan Greenspan, dizer o óbvio ululante sobre o mercado acionário chinês - que ele pode cair, depois de ter subido 300% em 18 meses, previsão que até a Xuxa faria - para os famosos ¿ativos¿ se retraírem no mundo inteiro. Ninguém cortou os pulsos nem saltou das janelas, mas a dose de incerteza e de imprevisibilidade, já alta em todo o planeta, recebeu mais um reforço. E esse é que é o grande embaraço ao desenvolvimento, ao progresso, à geração de empregos, aos fundos de pensões e aposentadorias, à vida privada das pessoas.
Esse senhor Greenspan, ao invés de vaticinar encrencas, bem que poderia usar sua sabedoria, seus conhecimentos e sua vasta experiência no trato das finanças mundiais para ajudar o mundo a evitar esses sobressaltos, criando salvaguardas eficazes contra a mera especulação, como fez Lord Keynes nos anos 40, ao contribuir para a criação do FMI. Esse organismo, bem ou mal, ajudou a preservar durante longo tempo um sistema monetário mundial confiável (ao menos no que se referia às chamadas moedas fortes), o que permitiu um desenvolvimento vigoroso do comércio e elevou o nível de várias economias, inclusive a da China.
A China é hoje, de fato, um risco. Primeiro, pelo nível astronômico das reservas chinesas em divisas fortes, equivalentes a mais de US$ 1,1 trilhão, segundo informações mais ou menos confiáveis, já que as contas nacionais da China são assunto pouco aberto ao mundo. Então, se o governo chinês fala em deslocar essas reservas, ou parte delas, para aplicá-las em novos ativos - como realmente andou falando na semana passada -, o mercado financeiro mundial entra em frenesi, pois, qualquer que seja o tamanho da migalha de manjericão monetário que o governo chinês despeje em qualquer pizza financeira servida nos mercados modernos, esta terá expressiva valorização em detrimento das outras. Os perdedores erguerão seus brados de revolta, os únicos audíveis, pois os ganhadores nunca fazem barulho. Bronca, como dizia o velho malandro do samba, é ferramenta de otário.
A outra luz amarela que a China acende no tráfego das finanças mundiais, e deixa aturdidos os motoristas de carros-forte, é a do valor da sua moeda, o yuan. O mundo da sabedoria financeira convencional - FMI, Tesouro americano, industriais exportadores, etc. - proclama que a moeda chinesa está desvalorizada demais. Esse é um conceito relativo, que alguns economistas pensam que é absoluto. Nunca é possível saber qual o valor que qualquer moeda deve ter. Para o chinês que vive na China o valor bom da sua moeda é aquele que lhe permite viver com conforto e razoável segurança financeira e familiar. Para o cidadão não chinês que quer vender coisas para a China o valor bom é o mais alto possível em relação à sua própria moeda. Para quem quer comprar da China, o bom é o valor mais baixo possível em relação à sua moeda nacional. Para quem quer investir na China é também muito bom um valor muito baixo do yuan: o custo do seu investimento será menor do que no seu próprio país ou alhures e, por conseguinte, o preço dos produtos que fabricará e exportará será mais baixo e melhor aceito no mercado internacional.
Então, o problema é de quem não está investindo na China e sofre a concorrência de produtos chineses no mercado mundial. E também dos trabalhadores que perdem empregos por causa da concorrência chinesa ou da mudança de fábricas para a China. Todos dizem que o governo chinês mantém o valor do yuan ¿artificialmente¿ baixo. O que realmente pode ser dito, porque a China não é um país de economia de mercado, como o governo brasileiro achou que era, e ali o governo determina as coisas, de maneira mais ou menos enforced conforme o caso: seja a taxa de câmbio, os juros ou os salários - uma vez que inventou um capitalismo centralmente planificado.
O fato é que na semana passada a vice-primeira-ministra da China, uma senhora com sorriso afável de vovozinha contadora de histórias, chamada Wu Yi, foi a Washington para o Diálogo Estratégico e Econômico EUA-China, que tinha uma pauta repleta de minudências, mas na prática pretendia obter dos chineses alguma coisa ¿sustanciosa¿, como diria o caipira, em termos de compromisso com a valorização do yuan. Os americanos, como se sabe, não entram seriamente em diálogo nenhum, só querem saber de monólogos. Levam prontos os seus argumentos, que consideram os únicos razoáveis e, ao serem refutados, saem dizendo, candidamente, que não sabem por que o interlocutor não aceitou perorações tão racionais e objetivas.
Os chineses não precisam de nenhum diálogo. Estão felizes com o valor da sua moeda, a economia chinesa vai de vento em popa, o problema não é deles. Então, dialogar para quê? Por cortesia, talvez. Para não serem chatos. Por não precisarem de diálogo, também não precisam de argumentos. Foram lá para ouvir e conceder alguma coisinha, mas que não perturbasse a sua horta. Concordaram até em ampliar um pouco a faixa de variação da relação yuan-dólar. Nada demais. Tanto assim que alguns congressistas americanos já disseram que não é suficiente. Mas o que podem fazer em represália? Nada.
A verdade é que a economia americana, a maior e mais poderosa do mundo (ainda), se tornou refém dos chineses, seja no comércio, seja nas finanças, seja nos investimentos - as empresas americanas expandem-se mais na China do que nos EUA. E os rumos da economia mundial dependem, hoje, muito mais de como o governo chinês se oriente do que das falas do secretário do Tesouro dos EUA ou do presidente do Fed.
Isso é um perigo? Não é. É apenas um novo mundo.