Título: Gautama usava dinheiro vivo
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Fonte: O Estado de São Paulo, 31/05/2007, Nacional, p. A7

Depoimentos dos acusados de envolvimento com a máfia das obras revelam que era freqüente a movimentação de grandes somas em dinheiro vivo por funcionários da Gautama. O relato de um funcionário preso no início da Operação Navalha à ministra Eliana Calmon, do Superior Tribunal de Justiça (STF), revela que houve ocasião em que R$ 650 mil foram transportados para Sergipe em uma caixa.

A justificativa dada pela maioria dos interrogados era que os recursos se destinavam a pagamentos por serviços e despesas das obras.

O assistente financeiro Humberto Rios de Oliveira, da Gautama, declarou à Justiça que em uma viagem entre Salvador e Aracaju foi parado por policiais rodoviários e se viu obrigado a dar explicações sobre uma caixa fechada com R$ 650 mil. O dinheiro, segundo ele, era para uma obra em Aracaju e foi transportado a pedido do dono da Gautama, Zuleido Veras, apontado como chefe da máfia das obras.

De acordo com Oliveira, apesar de não ter comprovante sobre a origem da quantia, ele foi liberado tão logo os policiais confirmaram com funcionários da Gautama que o dinheiro tinha como destino o pagamento de despesas de obra. Os policias telefonaram aos números que Oliveira indicou.

Dinheiro vivo também era a regra nas transações da fazenda da empresa em Goiás, conforme depoimento de Henrique a de Araújo, um dos administradores da propriedade. A PF aponta Araújo como transportador de dinheiro de propinas e sustenta que a fazenda era espaço 'para legalizar a receita proveniente da atividade delituosa mediante compra e venda de gado bovino'.

Além de confirmarem o uso de dinheiro vivo, os depoentes também admitiram que era comum o uso dos envelopes vistos nas gravações obtidas pela PF. No caso do envelope que levou à queda do então ministro das Minas e Energia, Silas Rondeau, a versão apresentada pela diretora comercial da Gautama, Fátima Palmeira, é de que ele conteria documentação da obra Urucu, no Amazonas. Para a PF, o envelope conteria R$ 100 mil que foram entregues a Ivo de Almeida Costa, assessor de Rondeau, como propina para favorecer a Gautama.

Tida como braço direito de Zuleido Veras, Fátima surpreendeu ao apresentar versão inusitada para justificar o episódio em que ela aparece no aeroporto de Brasília com Zuleido. Nas imagens da PF, o dono da Gautama aparece indo ao banheiro masculino com a bolsa carregada pela diretora. Fátima alegou à ministra Eliana Calmon que, na verdade, Zuleido perguntou se ela tinha papel higiênico na bolsa. Ao ouvir que sim, o dono da Gautama pegou a bolsa dela e foi ao banheiro do aeroporto, devolvendo-a na volta.

Em sua maioria, os presos não colaboraram com a investigação, a ponto de o Ministério Público pedir que a secretária de Zuleido, Tereza Freire Lima, permanecesse presa. As poucas revelações foram dadas aparentemente sem a intenção de comprometer os envolvidos. Um dos casos é o do engenheiro Sérgio Sá. Ele disse que em uma audiência com o governador do Piauí, Wellington Dias (PT), o petista pediu 'para ajudá-lo a acelerar o programa Luz para Todos'. A versão pretendia justificar as conversas interceptadas em que ele aparece discutindo o programa.