Título: Jeito de bolha
Autor: Ming, Celso
Fonte: O Estado de São Paulo, 31/05/2007, Economia, p. B2
Ontem o mercado financeiro global enfrentou nova ventania depois que o governo da China triplicou a taxa sobre ganhos obtidos na compra e venda de ações, de 0,1% para 0,3%.
Passado o susto, os mercados se recuperaram, principalmente depois que a ata do Fomc (o Copom americano) desanuviou os espíritos quanto às questões da economia dos Estados Unidos, que também vinham preocupando o mercado. Mas a questão chinesa não é fato ultrapassado.
Apesar do aumento colossal, a taxa cobrada ainda é baixa. O que mais chacoalhou a goiabeira não foi a garfada do Fisco chinês, mas a disposição das autoridades de evitar o estouro da Bolsa. Se esse 0,3% não for suficiente para normalizar o mercado, a dose será reforçada.
Ontem, o Índice CSI 300, da Bolsa de Xangai, caiu 6,8% e só não caiu mais porque a negociação de mais da metade das 300 ações que o compõem foi suspensa quando atingiu o limite de baixa de 10%. Essa correção tem tudo para continuar. Se a queda for de 30%, ninguém estranhará porque, apenas neste ano, a valorização dos papéis é de quase 100%.
Há uma semana, o ex-presidente do Federal Reserve (o banco central americano) Alan Greenspan denunciara a 'exuberância' da Bolsa de Xangai e alertou para uma 'dramática contração'. E é esse crash que as autoridades chinesas querem evitar, por meio do aumento da taxação.
As Bolsas asiáticas, mais próximas de Xangai, acusaram o abalo. No resto do mundo, houve mais mau humor e pretexto para realização de lucro, como aqui, do que um estremecimento.
Os analistas agora querem saber qual poderá ser a extensão do impacto na economia mundial se acontecer a 'dramática contração' de que falou Greenspan.
Do ponto de vista dos interesses da economia brasileira, esta é a questão principal porque, se desandar a atual fase de bonança global, alguns fatores que vêm favorecendo o Brasil poderiam, em princípio, também desaparecer.
A Bolsa chinesa já é um mamute. Só ontem negociou US$ 53 bilhões, o dobro do que se negocia diariamente em Nova York e 27 vezes mais do que na Bolsa brasileira. Mas enfrenta dois problemas: inexperiência e falta de opção de aplicação financeira por parte do aplicador chinês. Os 58 anos de regime comunista quebraram a cultura do risco, com que hoje o chinês parece não saber lidar. Daí essa predisposição a embarcar com excessiva sofreguidão em ondas especulativas.
Mas, como afirma o ex-economista-chefe do FMI e professor de Harvard, Kenneth Rogoff, ao contrário do que ocorre no resto do mundo, 'a Bolsa de Xangai tem só uma tênue conexão com a economia real'. Isso significa que, se as autoridades chinesas tiverem dificuldade para controlar o mercado e a Bolsa dizimar trilhões de yuans em patrimônio inchado numa trombada dessas, os estragos sobre a economia global devem ser de pouca monta.