Título: Está saindo muito dinheiro do País
Autor: Tamer, Alberto
Fonte: O Estado de São Paulo, 31/05/2007, Economia, p. B9
Está sendo feito mais investimento no exterior do que os US$ 18,5 bilhões que entraram no País no ano passado. Empresas nacionais estão buscando outros mercados, sufocadas pelo câmbio, juros, infra-estrutura onerosa e deficiente, incerteza quanto ao abastecimento de energia. Enfim, todo o pesado custo Brasil. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva apoia-se em alguns economistas para afirmar que isso é bom. Outros vêem essas fugas como um problema, pois cada empresa que investe no exterior deixa de produzir e criar empregos no Brasil.
Há, neste caso, uma falha de interpretação tanto do presidente quanto de alguns economistas para os quais todos ganham com a internacionalização de empresas brasileiras.
AS MULTINACIONAIS, SIM
Primeiro, eles não levam em consideração a categoria de empresas que estão buscando condições melhores na China, nos Estados Unidos, na Europa. E há dois tipos: 1- As multinacionais brasileiras, como a Vale do Rio Doce.
Estas têm grande disponibilidade de capital e podem investir no exterior sem deixar de investir no Brasil. A saída não se deve tanto aos custos internos elevados, mas a uma saudável estratégia de mercado.
Têm capacidade para produzir e vender aqui e no exterior. Há casos mais graves, como anuncia agora a Vale, apoiada pela Alcoa. Vai adiar novos investimentos por causa da incerteza quanto ao abastecimento de energia a partir de 2010.
TEM DINHEIRO, MAS...
O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, afirma que o PAC tem R$ 274 bilhões só para energia. Mas o dinheiro, se existe, continua guardado na falta de projetos ou de suas liberações. Só que a Vale, entre outras, não pode esperar, pois seus empreendimentos são de enorme valor e longa maturação. Ela já está estudando novos mercados externos. O seu presidente, Roger Agnelli, foi categórico. 'O Brasil precisa ter mais geração de energia, seja nuclear, térmica, gás, carvão, hídrica, o que for. Mas precisa ter mais energia', desabafou.
Mas este é um caso específico de empresa intensamente utilizadora de energia, na verdade uma espécie de insumo. Se ela investir lá fora com medo do racionamento, são bilhões de dólares que poderiam e deveriam estar sendo aplicados aqui e vão gerar riqueza nos países em que se instalam.
Não é a situação das médias e pequenas empresas que também estão seguindo as grandes. E é isso o que preocupa, pois são de mão-de-obra intensiva. Não consomem tanta energia, mas empregam muita gente.
AS MÉDIAS E PEQUENAS, NÃO
2 - Aqui o principal desafio que anula o duvidoso argumento da internacionalização. Agora, são as pequenas e médias empresas que estão deixando de produzir aqui buscando outras oportunidades lá fora. Setores como calçados, tecidos, confecções, madeira, todos que empregam milhares de trabalhadores. Muitas indústrias não só estão indo para o exterior, mas deixaram de produzir aqui e estão ou irão produzir lá fora a custos menores e mercados maiores. Há sempre o argumento de que uma parte do dinheiro pode voltar para o País. Pode é a expressão.
Primeiro, esse retorno é problemático e duvidoso, pois as empresas terão um prazo de vários anos para amortizar o investimento feito. Segundo, ninguém garante que o dinheiro volte, pois por que investir no Brasil com uma carga tributária da ordem de 38%? Para acabar com esse argumento, volta a frase de Keynes, 'no futuro estaremos todos mortos' . E, no caso do Brasil, que somente agora aponta para uma retomada do crescimento, o presente é hoje. Agora, ou melhor, ontem. Estamos abrindo mão de centenas de milhares de empregos que serão criados no exterior. É algo para meditar antes de defender a internacionalização generalizada que estamos vendo aumentar cada vez mais.
É UMA CONTRADIÇÃO
Na verdade, criar condições para esse êxodo de capital, mesmo com as empresas continuando no Brasil, mas investindo menos ou quase nada diante da nova prioridade, é simplesmente um contra-senso. Que as grandes, as multinacionais ampliem suas opções externas, tudo bem. Mesmo porque são setores primários de menor valor agregado, não utilizam intensamente mão-de-obra, que precisamos tanto criar para aumentar o padrão de vida dos operários - meta principal e correta de Lula - e sustentar a expansão do mercado interno. Mas, acreditem, não criar condições para que as médias e pequenas continuem aumentando suas atividades no Brasil, é inaceitável. E há pelo menos 4 mil à espera de condições melhores para competir no exterior.
A SAÍDA?
Uma proteção especial para as indústrias de mão-de-obra intensiva, que não pode se limitar apenas ao cosmético aumento das tarifas de importação. Trinta por cento ou 40% pontuais não são suficientes para evitar a fuga e levar os empresários desses setores a voltar a investir no Brasil. E tem mais, cabe à equipe econômica estudar novas medidas e falar menos, dar menos entrevistas que povoam, sim povoam, diariamente os jornais com argumentos frágeis e, às vezes, enganosos. Vamos deixar de nos iludir, senhores. Pé no chão e criem condições para que as empresas que empregam muito não continuem indo investir no exterior. Tudo o mais é converva fiada.