Título: Economistas divergem sobre impacto do câmbio
Autor: Dantas, Fernando
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/06/2007, Economia, p. B1
O debate sobre o papel do câmbio real no crescimento econômico está longe de ser resolvido. Há poucas dúvidas de que um excesso de oscilações e turbulências cambiais são entrave ao desenvolvimento, mas não há mesmo consenso sobre impactos da sobrevalorização ou subvalorização da moeda local.
Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central (BC), nota que existe uma estreita correlação no Brasil das últimas décadas entre momentos em que o câmbio real se valorizou e aqueles em que aumentaram os investimentos. Isto se explica pelo barateamento de máquinas e equipamentos importados. Mais investimentos, por outro lado, contribuem para acelerar o crescimento.
No pólo oposto, economistas como Luiz Carlos Bresser-Pereira, ex-ministro da Fazenda, vêem um sério risco de desindustrialização no País, em função da sobrevalorização do real. O problema seria uma variante da chamada 'doença holandesa', que ocorre quando a disparada dos preços internacionais de um produto exportado muito importante na pauta do País (tipicamente um recurso natural)provoca uma inundação de dólares na economia, que sobrevaloriza o câmbio e inviabiliza a competitividade do setor industrial. O Brasil seria um caso diferente de doença holandesa, já que os produtos causadores são múltiplos, como soja, álcool, ferro e outras exportação agrícolas e minerais.
Uma terceira posição é a da economista Eliana Cardoso, que vê uma correlação entre câmbio desvalorizado e rápido crescimento econômico. Esta é uma associação que muitas pessoas fazem, tomando casos relativamente recentes como a China, Índia e outros países asiáticos, mas que não é consensual entre os economistas. Uma provável explicação para este efeito, caso ele exista realmente, é a de que o setor exportador é aquele no qual a produtividade avança mais rápido. Assim, um câmbio que estimule os investimentos na exportação contribui para o aumento da produtividade e para um crescimento mais veloz.