Título: Chirac dá adeus e se expõe à Justiça
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Fonte: O Estado de São Paulo, 16/05/2007, Internacional, p. A11
Após 12 anos como presidente da França, Jacques Chirac despediu-se ontem dos franceses. Num discurso televisionado, Chirac pediu a união do país e disse estar orgulhoso de seu trabalho. Aos 74 anos, com mais de quatro décadas na política, o presidente francês passará hoje o poder ao também conservador Nicolas Sarkozy. A cerimônia de posse será às 11 horas (6 horas de Brasília).
A aposentadoria de Chirac, no entanto, pode ser marcada por investigações de corrupção durante seu mandato como prefeito de Paris entre 1977 e 1995. Seu partido, União por um Movimento Popular (UMP), foi acusado de beneficiar-se de financiamento ilegal. Até agora, o presidente estava protegido pela imunidade que o cargo lhe proporcionava - privilégio que perderá a partir de 16 de junho.
Fontes judiciais disseram que o juiz que investiga o caso pode convocar Chirac para depor no mês que vem. Ao longo de sua carreira política, Chirac foi várias vezes acusado de corrupção, mas conseguiu, até hoje, evitar processos judiciais.
Em seu discurso de ontem, Chirac afirmou que passará o poder a Sarkozy ¿com o orgulho do dever cumprido¿. Ele pediu que o país permaneça unido. ¿A nação é uma família. Essa ligação é nosso bem mais precioso¿, disse. O presidente afirmou ainda que está confiante de que o país continuará liderando as questões européias: ¿A França mostrará que é uma nação exemplar, uma nação que lidera a construção da Europa, uma nação generosa.¿
Chirac também desejou sorte a Sarkozy, que terá a ¿missão de guiar a França para o futuro¿. O discurso de despedida de Chirac foi o primeiro transmitido pela TV desde a saída de Valerie Giscard d¿Estaing, em 1981.
O primeiro-ministro, Dominique de Villepin, e os 30 ministros do governo renunciaram formalmente ontem. O presidente despediu-se de Villepin, leal partidário, com um forte aperto de mão na porta do Palácio do Eliseu.
LEGADO
Como líder francês, Chirac teve papel importante no fim da guerra na ex-Iugoslávia nos anos 90 e foi o primeiro presidente a reconhecer que autoridades francesas participaram do Holocausto na 2ª Guerra. Chirac também criticou duramente a invasão americana no Iraque em 2003 e chegou a ser qualificado pelo ex-ministro da Defesa dos EUA Donald Rumsfeld de ¿representante da velha Europa¿.
Após deixar o Palácio do Eliseu, Chirac e sua mulher, Bernardette, passarão a morar no centro de Paris num apartamento que pertencia à família do ex-primeiro-ministro libanês Rafic Hariri. Chirac afirmou que pretende criar uma fundação para fomentar o desenvolvimento sustentável e o diálogo entre culturas. O presidente receberá uma pensão mensal de 19 mil (cerca de R$ 51 mil).
A ERA CHIRAC
Maio de 1995: Chirac assume a presidência
Maio de 2002: É reeleito com 82% dos votos
Julho de 2002: Escapa de atentado em desfile militar
Maio de 2005: 55% dos franceses rejeitam Constituição da UE
Outubro e novembro de 2005: Jovens protestam em redutos de imigrantes de Paris e outras cidades
Fevereiro e abril de 2006: Milhões protestam contra lei que permite a demissão sem indenização de jovens com menos de 26 anos
Março de 2007: Chirac anuncia que não disputará novo mandato.