Título: No Eliseu, o mestre dá lugar ao antigo discípulo
Autor: Lapouge, Gilles
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/05/2007, Internacional, p. A11
É o fim para Jacques Chirac, de 74 anos, após 42 anos de uma vida política brilhante, os últimos 12 no magnífico Palácio do Eliseu. Hoje, ele confiará as chaves da França a Nicolas Sarkozy, de 52 anos. Na manhã de ontem, um operário pegou uma estátua de Chirac e a levou para um depósito. Outro operário chegou logo em seguida, arrastando a estátua de Sarkozy, colocada no lugar recém-abandonado pela de Chirac. Isso se passou no Museu Grévin, a instituição parisiense onde as celebridades da hora são reproduzidas em imagens. O presidente de saída é reconduzido às ¿reservas.¿
No Museu Grévin, a transmissão de poder foi tranqüila. Os dois homens, Chirac e Sarkozy, mostraram grande dignidade. Nada de caretas e nenhuma lágrima no rosto de Chirac. Nada de alegria indecente em Sarkozy. Ambos exibiram a perfeita frieza. Sua desculpa é que as imagens são modeladas em cera, e a cera raramente permite fisionomias jubilosas ou muito expressivas.
Dificilmente a transmissão do poder será diferente. As cerimônias oficiais na França são regradas por uma etiqueta rígida que prevê minuciosamente os gestos, os discursos, a emoção, o sorriso. Está fora de questão sair da escrita.
Assim, quem quiser adivinhar o segredo dessas duas almas terá de decifrar os sinais imperceptíveis (um crispar de lábios, uma piscar de olhos...), o discurso de seu inconsciente. E esse discurso inaudível será tonitruante. Para Chirac, a saída é de partir o coração. É o fim de um destino, após tantos anos sob as luzes da ribalta.
Sarkozy pertence ao mesmo movimento (gaullista) que Chirac. E eles têm pontos comuns. Sobretudo um ponto comum: a ambição frenética. O homem de 74 anos substituído pelo de 52 é um pouco como se o velho Chirac tivesse sido expulso pelo seu ¿duplo¿, por uma espécie de ¿jovem¿ Chirac tão ambicioso como ele próprio foi.
No começo, há uns 30 anos, Sarkozy era um discípulo submisso de Chirac. Com o passar do tempo, porém, Sarkozy quis ser mais que um mero reflexo de seu modelo Chirac. E ele o traiu: quando Edouard Balladur se contrapôs a Chirac nas eleições presidenciais de 1995, Sarkozy passou para o lado inimigo, tomou o partido de Balladur. A traição de Sarkozy se revelou inútil porque Chirac venceu. E guardou um rancor tenaz contra o discípulo.
Explica-se assim o combate desesperado de Chirac, alguns anos atrás, para entravar a marcha triunfal de Sarkozy para as eleições presidenciais. Mas todos os ataques dirigidos por Chirac contra o antigo protegido falharam. E Sarkozy vai receber das mãos de seu amigo-inimigo os códigos do ¿fogo nuclear¿ - símbolo supremo do poder do presidente.
Chirac faz constantes balanços de sua própria ação. Em geral, ele considera esse balanço ora positivo, ora muito positivo. Aos olhos dos franceses não é bem assim. A maioria estima que o balanço de Chirac é medíocre, nefasto ou nulo.
O que reprovam nele? Ele aguçou a fratura social que havia prometido reduzir: existem cada vez mais pobres, e cada vez mais muito ricos! A economia está estagnada. O moral dos cidadãos é catastrófico: pessimismo, sentimento de decadência, etc. A França está enferma e sem nenhuma reforma séria para enfrentar os fluxos desencadeados pela globalização, pelo mercado.
No lado dos pontos positivos, Chirac pode alinhar sua política internacional: a guerra no Iraque, claro, que ele desaprovou vigorosamente. E a presença francesa na ex-Iugoslávia martirizada, ações reais em favor dos países mais atingidos.
O somatório é fraco. Mas, então, os franceses não o amam? Não, pelo contrário, e isso é um mistério: os mesmos cidadãos que denunciam suas ações em 12 anos no Eliseu têm uma verdadeira ternura pelo personagem. Eles o vêem como uma espécie de companheiro, um grande tipo sedutor, risonho, um pouco farsante, bon vivant, de bom coração, bastante misterioso aliás, porque, mesmo pertencendo oficialmente à direita, aplicou com freqüência uma política de esquerda.
É verdade que ele não é tão admirado quanto foi Charles de Gaulle, tão respeitado como Mitterrand. É amado, isso é tudo. As pessoas gostariam de comer uns petiscos com ele num bistrô dos Halles, o antigo mercadão de Paris. Seria divertido. Claro, ele levou uma vida de príncipe no Eliseu (viagens custosas e fausto). Ele com certeza encobriu casos não muito claros quando era prefeito de Paris. Mas qual político não tem seus defeitos?
Ele permaneceu 12 anos em nossa companhia: isso cria laços. Ele é um pouco de nós mesmos. Amanhã com certeza haverá pessoas que julgarão com severidade os atos de Chirac e outras que se comoverão até as lágrimas vendo se apagar em Paris a silhueta comprida desse bravo companheiro, um pouco como se vissem elas mesmas partir para as sombras.
E elas olharão para a outra silhueta. Um contraste absoluto: um senhor pequeno, seco e agitado como um grilo. Um bloco de energia. O grande nariz. Os nervos. Um sorriso fácil mas crispado, sempre hesitando entre o beijo e a mordida. Inquietante: é o homem da polícia. Tranqüilizador: é o homem da polícia.