Título: Consumo interno surpreende até os mais otimistas
Autor: De Chiara, Márcia
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/06/2007, Economia, p. B4

O vigor do mercado interno neste ano superou as expectativas mais favoráveis da indústria e do comércio. Quem fabrica ou vende eletrodomésticos, carros, móveis, eletroportáteis, entre outros bens duráveis, não tem do que reclamar. Que o motor do crescimento este ano seria o mercado interno, isso era consenso, diz o economista da LCA Consultores, Bráulio Borges. 'Mas a expectativa era de que as vendas de bens duráveis desacelerassem, o que não ocorreu. Ao contrário: estão aceleradas, e muito.'

Crédito farto, com prazos longos e juros menores, além do aumento da massa de salários, explicam boa parte desse desempenho. Mas o fôlego extra no consumo doméstico veio com a queda do dólar além das expectativas, observam economistas e empresários. Com isso, os preços despencaram e o consumidor acelerou o ritmo de compras.O câmbio abaixo de R$ 2 provocou queda nos preços dos itens que levam componentes importados e daqueles que enfrentam a concorrência de similares vindos de fora.

Nos automóveis, por exemplo, segmento que está com a demanda superaquecida, a inflação em dois anos está bem abaixo dos índices gerais de preços da economia, diz Borges. O prazo máximo dos financiamentos de veículos também esticou. Há um ano e meio era de 36 meses, hoje é de 72 meses. 'Isso está acontecendo não apenas com os carros e faz uma bela diferença na prestação', diz o economista.

Por causa dessa conjugação favorável de fatores, a consultoria estima que o consumo das famílias cresça neste ano 5,7% e atinja a maior variação desde 2004. As projeções indicam a mesma tendência neste ano para a venda de móveis e eletrodomésticos (26,5%), veículos novos (16%), materiais de construção (5,8%) e artigos de uso pessoal (21,9%).

'As vendas estão surpreendendo', confirma Valdemir Dantas, sócio-diretor da Latina Eletrodomésticos, com fábricas em São Carlos (SP) e Recife (PE). A empresa, que fabrica tanquinhos, purificadores refrigerados de água e bebedouros refrigerados, vendeu, de janeiro a abril, uma quantidade de itens 20% maior em relação ao mesmo período de 2006 e faturou 14,8% mais. A expectativa da empresa era ampliar em 10% o volume e a receita.

Dantas diz que os preços médios dos tanquinhos caíram 5% este ano e as vendas de modelos mais baratos cresceram. Para atender à demanda acima do esperado, a empresa ampliou as horas extras e o quadro de funcionários em 15%. 'Se o primeiro semestre indicar que este será um ano de sucesso, poderemos fazer investimentos.' O empresário diz que tem projetos para lançar produtos, mas qualquer expansão só se justificaria com crescimento de vendas na faixa de 25%.

Nos eletroportáteis, o quadro é semelhante. 'O desempenho do primeiro quadrimestre está acima do esperado', conta Marcelo Padovani, vice-presidente para América Latina da Philips, dona da marca Walita. Segundo ele, as vendas no Brasil e na Argentina estão surpreendendo positivamente. A taxa de juros em queda ajuda. 'Mas o dólar deu um empurrão a mais no consumo.'

Estima-se no mercado que as vendas de eletroportáteis já cresceram neste ano 20% na comparação com o primeiro quadrimestre de 2006 e o acréscimo nos negócios com eletrodomésticos de grande porte, como geladeiras, fogões e máquinas de lavar, e produtos de informática, seja da ordem de 15%.

A Casas Bahia, maior rede de móveis e eletrodomésticos, confirmam o aquecimento no número de peças vendidas por causa do recuo nos preços e as facilidades de pagamento. No primeiro quadrimestre, a varejista aumentou em 12% as quantidades de produtos e entre 9% e 10% o faturamento, conta o diretor da rede, Michael Klein.

Segundo ele, houve queda de quase 16% no valor médio das vendas nos últimos 12 meses. Em abril de 2006, o valor médio das vendas era de R$ 440 e, no mês passado, foi de R$ 370. O recuo no valor das vendas, diz Klein, ocorreu por causa da queda nos preços dos produtos que têm influência do dólar.

Uma TV de 29 polegadas, que custava R$ 999 no ano passado, hoje sai por R$ 699, uma diferença de R$ 300, exemplifica Klein. O preço do telefone celular mais barato vendido pela rede, que era R$ 199 em 2006, atualmente é comercializado por R$ 79. 'O preço caiu para menos da metade.'

Na prática, a queda dos preços combinada com prazos longos promove uma espécie de 'multiplicação' do poder de compra do consumidor. José Roberto Resende, diretor da Shopping Brasil, empresa especializada em pesquisa de preços, observa que comprar um aparelho de DVD de marca famosa pagando prestação de R$ 9,90 amplia muito o universo de consumidores. 'Por esse preço todo mundo pode comprar.'

Até mesmo as vendas de TVs, que foram impulsionadas em 2006 pela Copa do Mundo, repetiram no primeiro quadrimestre os volumes do ano passado, conta Klein. 'De janeiro a abril foram vendidos 700 mil televisores sem Copa do Mundo.' Cerca de 45% dos volumes estão concentrados nos aparelhos de 29 polegadas.

No caso dos refrigeradores, cujas vendas aumentaram 30% na rede, também ocorre migração de produtos mais baratos para os mais caros por causa das facilidades de parcelamento e recuo nos preços. 'Neste ano vedemos, até abril, 140 geladeiras de uma porta e 240 de porta dupla', diz Klein. Como os custos fixos da rede são os mesmos para vender produtos mais baratos, o empresário diz que tem de ampliar os volumes para garantir a rentabilidade.