Título: Ministra desbloqueia contas dos 48 suspeitos
Autor: Leal, Luciana Nunes
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/06/2007, Nacional, p. A8
A ministra do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Eliana Calmon autorizou ontem o desbloqueio das contas correntes dos 48 acusados de pertencer à máfia das obras que foram presos na Operação Navalha. Eles poderão movimentar até R$ 20 mil mensais de cada conta - quantias maiores dependerão de nova autorização judicial.
Na decisão, a ministra informa que os carros apreendidos pela Polícia Federal começarão a ser devolvidos aos donos a partir da próxima terça-feira, depois de serem periciados. Outros objetos apreendidos também serão devolvidos, se houver requerimento específico dos advogados ao STJ.
Eliana Calmon afirma ter optado pelo desbloqueio das contas ¿diante do grande número de petições solicitando providências quanto ao patrimônio dos indiciados¿. A liberação dos R$ 20 mil mensais vale também para as contas de empresas dos suspeitos, como a Construtora Gautama, de Zuleido Veras.
É um primeiro passo para o empreiteiro que, assim como os demais presos na operação da PF, já está em liberdade e, agora, planeja retomar a condução da empresa. Anteontem, quando foi solto, o acusado de ser o pivô da máfia das obras voou para Salvador, de onde costumava dirigir seus negócios.
O relatório preparado pela PF antes das prisões mostra que Zuleido tentou emplacar a nomeação de um diretor no Ministério do Planejamento que iria ajudar a tirar a empresa do que chamou de ¿pindaíba¿. As tentativas de Zuleido aparecem em conversas com o servidor do ministério Ernani Gomes Filho, que foi preso e era, então, assessor do deputado Marcio Reinaldo (PP-MG).
Nos diálogos, em que Gomes chega a chamar Zuleido de ¿chefe¿, o dono da Gautama garante que conseguiu emplacar uma pessoa sua como diretor no Planejamento. ¿Eu garanti o seguinte: tem uma pessoa nossa, minha, muito amiga minha, e que vai cumprir o que for preciso fazer¿, afirmou.
Em outra conversa entre os dois, em 13 de março, o dono da Gautama já comemora a provável nomeação do amigo. ¿Vamos fazer o nosso diretor, meu amigo, sair dessa pindaíba¿. E Gomes: ¿Exatamente¿.
Numa das primeiras conversas, Zuleido parece instruir Gomes para buscar seu pagamento na sede da Gautama. O empreiteiro diz ao servidor para ir até a empresa em duas horas e meia, porque seria ¿o tempo de Florêncio chegar¿. Florêncio é o funcionário da Gautama em Salvador que, segundo a investigação da PF, costumava transportar de avião dinheiro vivo para pagar propinas.
CANSAÇO
Também antes de ser preso, Zuleido dizia a amigos mais próximos que estava cansado de sua rotina extenuante em torno de trabalhos que lhe exigiam muito e o deixavam longe da família. Também se queixava do baixo fluxo de caixa na empresa. O esquema de fraude livrava a empresa de concorrência, mas tinha custo. Eram muitos os ¿pedágios¿ a serem pagos, em várias esferas, segundo revelou a investigação da PF.
Paraibano de Cacimba de Areia, distrito elevado a município em 1961, encravado no sertão, Zuleido chegou à Bahia por volta da década de 80. Entrou na empreiteira OAS e de forma rápida galgou postos até chegar à diretoria comercial. Era visto como dedicado ao trabalho, com ambição profissional e - sintomaticamente - talento para fazer negócios e fechar novos contratos.
Em 1995 abriu a Construtora Gautama para fazer no seu próprio empreendimento o que fazia na OAS. Depois, fundou a construtora Mandala, que deixou a cargo do filho Rodolpho e mais recentemente a Ecosama - apontada como envolvida em irregularidade pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo.