Título: Senador usa Cícero em sua defesa
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/05/2007, Nacional, p. A4
Na sua defesa de 24 minutos, o presidente do Senado, Renan Calheiros recorreu por quatro vezes à eficiente estratégia de citar gente de prestígio para valorizar sua causa. Pela ordem, ele mencionou o jurista Afonso Arinos (1905-1990), o filósofo e deputado Roland Corbusier (1914-2005), o orador e senador romano Marco Túlio Cícero (103 a.-43 a.C.) e o jamais esquecido Ruy Barbosa (1849 -1923).
No primeiro e no último caso, Renan aplaudiu duas unanimidades. A de Arinos foi a precisão do seu texto para o inciso X do art. 5º da Constituição, que considera ¿invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas¿. A de Ruy Barbosa foi uma de suas máximas: ¿Se alguma coisa divina existe entre os homens, é a justiça¿, que podia ser dita por qualquer dos presentes no plenário.
Na segunda citação, Renan foi buscar um adversário de Arinos para jogar contra a imprensa. Roland Corbusier foi um trabalhista vigoroso nos anos 50 e 60, que combateu Arinos e outros liberais no Congresso.
Nos anos 60, juntou-se a um grupo de intelectuais que criou o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), para defender o nacional-desenvolvimentismo contra a UDN e Carlos Lacerda. ¿Essa mania de denunciar, de acusar, essa obsessão do inquérito, da devassa (...) essa impaciência em fazer justiça com as próprias mãos, a longo prazo se revela nociva à formação política e mesmo moral do País¿, disse Corbusier num momento de crise da política brasileira, depois da morte de Getúlio Vargas. O acusador a que ele se referia era Lacerda.
A citação de Cícero foi um exagero: Renan comparou as acusações que lhe fez a Veja no fim de semana com as que eram dirigidas ao célebre tribuno e ao Senado, nos dramáticos anos finais da República romana. Cícero lutou e morreu pela causa republicana, que morreu em 27 a. C., quando Otávio Augusto foi coroado imperador. ¿Há dois mil anos a política era feita de casos pessoais (...) Cícero já condenava essa prática... Agora se vê a sórdida tentativa de restaurar esses tempos no Brasil.¿ A menção equivale a dizer que, ao criticá-lo, a imprensa quer enfraquecer o Congresso e acabar com a democracia no País.