Título: Renan nega ter recebido de empreiteira, mas corregedor mantém investigação
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Fonte: O Estado de São Paulo, 29/05/2007, Nacional, p. A4

Apresentando-se como vítima de um ¿falso escândalo que a Nação estarrecida acompanha¿, o presidente do Congresso, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), tomou ontem o plenário do Senado para admitir publicamente uma relação extraconjugal com a jornalista Mônica Veloso que lhe deu uma filha, hoje com 3 anos. Apesar de abrir a questão da ¿paternidade não programada¿, de mostrar documentos e negar a revelação feita pela revista Veja - de que as despesas pessoais com a pensão e a moradia da filha e da jornalista seriam bancadas pelo lobista Cláudio Gontijo, da Construtora Mendes Júnior -, o senador deixou um ¿buraco¿ nas explicações para o período anterior ao reconhecimento da paternidade, que ocorreu em dezembro de 2005.

Para o corregedor do Senado, Romeu Tuma (DEM-SP ), as explicações não encerraram o assunto. ¿Preliminarmente, estou convencido. Mas vou fazer uma investigação nos documentos e apresentar um relatório que será encaminhado à Mesa do Senado e ao Conselho de Ética¿, disse Tuma.

Acompanhado da mulher, Verônica, dos filhos e do irmão Renildo Calheiros, Renan discursou por 24 minutos. Verônica sentou-se na primeira fila da tribuna de honra, ouviu o discurso e levantou-se, ao final, para aplaudir o marido senador. Entrou na fila dos cumprimentos e, quando subiu à Mesa Diretora para abraçá-lo, foi aplaudida pelo plenário.

CONTRADIÇÕES

Apesar do apoio, os dados dos documentos do presidente do Congresso não batem com os que foram apresentados pela reportagem da revista. E ainda deixam em aberto outras questões envolvendo sua relação com alguns dos presos no escândalo da máfia das obras. A reportagem de Veja informa que Gontijo pagava para Renan uma pensão mensal de R$ 12 mil para a filha fora do casamento e o aluguel do apartamento onde ela vivia com a mãe, no valor de R$ 4,5 mil - totalizando gastos mensais de R$ 16,5 mil. Nos documentos apresentados pelo presidente do Senado, nenhum valor diz respeito ao período pré-reconhecimento da filha - do início de 2004 até novembro de 2005. Ele não entregou nenhum documento que garanta que os valores repassados à jornalista nesse período tenham sido, de fato, pagos com recursos próprios.

No período pré-reconhecimento, Renan diz ter pago também um fundo especial para a educação da filha, num total de R$ 100 mil. Segundo sua assessoria, esses valores foram repassados em duas parcelas de R$ 50 mil cada (uma em março de 2006 e outra em julho). Também não foram entregues comprovantes dessas operações.

Os demonstrativos referentes aos aluguéis pagos pelo senador igualmente não foram apresentados por ele. ¿Todos os recursos foram pagos por mim. São recursos meus para os quais eu tenho condições de arcar, de acordo com minhas declarações de Imposto de Renda que estão à disposição¿, afirmou. ¿É uma prova irrefutável, uma prova documental.¿ Em sua confissão carregada de indignação, ele afirmou que, quando soube da gravidez de Mônica, passou a ajudá-la financeiramente.

¿Não fugi a esse calvário¿, disse. ¿Logo que tive conhecimento da gravidez, impossibilitado de fazê-lo pessoalmente, em virtude da circunstância que se impunha, pedi a um amigo que intermediasse o meu apoio¿, explicou, numa referência ao lobista Cláudio Gontijo. Afirmou que a partir daí passou a pagar uma pensão de R$ 3 mil mensais.

¿Nos dois primeiros meses, o pagamento se deu por cheques nominais do Banco do Brasil, ambos compensados na conta (...) do Unibanco, cuja titular é mãe. A partir de fevereiro de 2006, o pagamento passou a ser deduzido dos meus subsídios de senador¿, sustentou. ¿Esses documentos, por si sós, desmentem que terceiros teriam pagado a pensão por mim até dezembro de 2006.¿

VALORES

Os valores, no entanto, são inferiores aos apresentados pela reportagem de Veja. Segundo a revista, o aluguel era de R$ 4,5 mil mensais, além de R$ 12 mil de pensão. Considerando os dados apresentados por ele, os valores mensais não ultrapassavam R$ 12 mil.

Renan disse ainda que antes do reconhecimento da paternidade ¿prestou assistência à gestante em valor maior, em torno de R$ 8 mil¿. ¿Além disso, honrei, com meus próprios recursos, o aluguel de uma casa entre 15 de março de 2004 e 14 de março de 2005. Posteriormente, arquei com o aluguel de um apartamento entre março e novembro de 2005 para a gestante¿, afirmou, mas sem detalhar valores.

O presidente do Senado afirmou que Gontijo fazia os pagamentos em seu nome por ser seu velho conhecido e também amigo da mãe da criança. ¿Poucas pessoas de minha estrita relação pessoal, além do advogado, compartilhavam dessas agruras. Uma delas era Cláudio Gontijo, de quem sou amigo há mais de 20 anos, quando nem sequer cogitava trabalhar na empresa em que trabalha.¿

¿Ele era a pessoa para fazer a interlocução entre as partes, uma vez, que tinha amizade com a mãe da criança. Não nego e não renego minhas amizades¿, disse Renan, que chegou a pedir desculpas ao lobista por envolvê-lo no caso.

Mas negou qualquer relação com a Mendes Júnior. ¿Não tenho nenhuma relação com a Construtora Mendes Júnior, e essa ilação que foi feita não indica nenhuma conduta minha que implicasse benefício, apoio ou qualquer outra forma de favorecimento¿, ressaltou.

FRASES

Renan Calheiros Presidente do Senado

¿São recursos meus para os quais eu tenho condições de arcar, de acordo com minhas declarações de Imposto de Renda. É uma prova irrefutável¿

¿Documentos, por si só, desmentem que terceiros teriam pagado a pensão por mim até dezembro de 2006¿

¿Honrei, com meus próprios recursos, o aluguel de uma casa entre 15 de março de 2004 e 14 de março de 2005. Posteriormente, arquei com o aluguel de um apartamento entre março e novembro de 2005¿

¿Pessoas de minha estrita relação pessoal, além do advogado, compartilhavam dessas agruras. Uma delas era Cláudio Gontijo, de quem sou amigo há mais de 20 anos, quando nem sequer cogitava trabalhar na empresa. (...) O fato dele trabalhar para a Mendes Júnior não tem relação com o assunto¿

¿Não tenho nenhuma relação com a construtora Mendes Júnior, e essa ilação que foi feita não indica nenhuma conduta minha que implicasse em benefício, apoio ou qualquer outra forma de favorecimento¿.