Título: Protestos se alastram na Venezuela
Autor: Costas, Ruth
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/05/2007, Internacional, p. A13

Milhares de estudantes que protestavam contra o fim das transmissões da Rádio Caracas de Televisão (RCTV) entraram ontem em choque com a polícia pelo segundo dia seguido em Caracas, Valencia e outras cidades. Como no domingo - quando venceu a concessão da emissora, não renovada pelo governo de Hugo Chávez, o que a obrigou a sair do ar às 23h59 -, a polícia usou gás lacrimogêneo e jatos d'água para conter os protestos. Dezenas de pessoas ficaram feridas, incluindo quatro estudantes baleados em Valencia, a 100 km de Caracas. Um deles teve uma bala alojada num pulmão.

Os conflitos começaram de manhã, quando os jovens se reuniram em universidades da capital para protestar, e se intensificaram depois das 15 horas. Alguns dos piores enfrentamentos ocorreram na Praça Brión, no bairro de Chacaito, onde estudantes se reuniram para fazer uma passeata até representações da União Européia e da Organização dos Estados Americanos. Os policiais usaram balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo lançadas de motos e blindados, enquanto alguns estudantes atacavam com garrafas e pedras. A versão oficial diz que havia alunos armados.

No ar havia 53 anos, a RCTV era a televisão de maior audiência no país e a única de alcance nacional que ainda fazia oposição ao governo. Chávez usou várias justificativas para cancelar a concessão. Primeiro, acusou a TV de ter apoiado o golpe que o afastou do poder por 48 horas em 2002. Depois, acusou-a de evasão fiscal e, por fim, aderiu a argumentos de cunho moralista.

'Quem ganhou com o fim das transmissões da RCTV foram as outras emissoras privadas - como a Venevisión, de Gustavo Cisneros -, que agora ficarão com a maior parte da verba publicitária', disse ao Estado Marcelino Bisbal, diretor de pós-graduação em Comunicação da Universidade Católica Andrés Bello.'O custo político para Chávez é maior porque os países que ainda tinham dúvida de que esse governo é autoritário agora se convenceram.' Várias entidades, como a Sociedade Interamericana de Imprensa, denunciaram o fechamento da TV como um atentado à liberdade de expressão.

O sinal da RCTV foi interrompido após um vídeo emocionado, em que atores e apresentadores se despediram e cantaram o hino nacional. Em seguida, entrou no ar o logotipo da Televisão Venezuelana Social (TVES), criada pelo governo para substituir a RCTV e definida como 'rede de serviço público independente', embora seja financiada pelo Estado e 5 de seus 7 diretores sejam indicados pelo Executivo. A TVES começou a transmitir à 0h20, com um show folclórico.

'Não produziremos os programas, mas os compraremos de terceiros, o que garantirá a independência de seu conteúdo', disse ao Estado Maria Alejandra Díaz, diretora de Responsabilidade Social do Ministério de Comunicações e, simultaneamente, diretora da TVES. Questionada se a simples escolha do material a ser transmitido não permitiria direcionar a programação, ela disse que 'o bom senso, currículo e ética' dos diretores são a garantia de que isso não ocorrerá.

Todo o espaço reservado publicitário da TVES é preenchido com propaganda dos projetos de Chávez. A emissora transmitiu ontem, entre outros, documentários sobre corais e viagens ao Alasca. Num programa, um animador com fantoches de coelho e tigre apresentava os personagens: 'Esse é o tigre do neoliberalismo.' 'Com essa programação moralizante, eles não têm a menor chance de atrair o público que via séries e novelas na RCTV', opinou Bisbal.

O Ministério de Comunicações pediu ontem à procuradoria que investigue a TV Globovisión (também de oposição, mas de alcance limitado) e a rede americana CNN por, respectivamente, incitar ao assassinato de Chávez e conduzir uma campanha de difamação contra a Venezuela.

FRASES

Marcelino Bisbal Diretor da Universidade Andrés Bello

'O custo político para Chávez é muito alto porque aqueles países que ainda tinham dúvida de que esse governo é autoritário agora se convenceram'

María Alejandra Díaz Diretora da TVES

'Não produziremos os programas, mas os compraremos de terceiros, o que garantirá a independência do conteúdo'.