Título: EUA e Irã se reúnem após 27 anos
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Fonte: O Estado de São Paulo, 29/05/2007, Internacional, p. A14
Em sua primeira reunião diplomática com o Irã em 27 anos, os EUA pediram ontem que o governo iraniano pare de apoiar os insurgentes no Iraque - acusação que Teerã voltou a negar. Apesar do impasse, os dois lados consideraram 'positivo' o encontro, que ocorreu em Bagdá e teve como objetivo tratar do futuro iraquiano.
Sob mediação do primeiro-ministro iraquiano, Nuri al-Maliki, os embaixadores em Bagdá Ryan Crocker, dos EUA, e Hassan Kazemi-Qomi, do Irã, conversaram durante quatro horas sobre a crescente violência sectária no Iraque. Nada foi mencionado sobre o polêmico programa nuclear iraniano, que vem acirrando as tensões entre EUA e Irã nos últimos anos. Também não foram citados os casos de cidadãos americanos detidos pelos iranianos e vice-versa.
O embaixador do Irã disse que haverá novo encontro em um mês. 'Este foi apenas o primeiro passo nas negociações entre os dois lados. O governo iraquiano disse que vai nos convidar para novas conversas no futuro', afirmou Kazemi-Qomi.
Crocker não confirmou a possibilidade de uma nova reunião e disse que a prioridade é barrar os iranianos que armam, financiam e treinam rebeldes xiitas no Iraque. 'Os iranianos, supostamente, sabem o que estão fazendo. A idéia era dizer que nós também sabemos e ressaltar que isso é perigoso para o Iraque e para toda a região', afirmou o embaixador dos EUA.
'Não levamos essas acusações a sério', insistiu Kazemi-Qomi após a reunião. O Pentágono já apresentou documentos, fotos e armas apreendidas que provariam a relação do Irã com os rebeldes no Iraque.
Crocker informou que remeterá a Washington uma proposta iraniana de criar um mecanismo trilateral - com Iraque, Irã e EUA - para coordenar os assuntos relacionados à segurança iraquiana. Após qualificar o treinamento que o Exército americano fornece aos militares do Iraque de 'inadequado diante dos desafios', Teerã ofereceu ajuda para treinar e armar o Exército iraquiano.
Dialogar com o Irã foi uma das principais sugestões feitas, no ano passado, pelo Grupo de Estudos para o Iraque. A maioria das indicações do grupo - formado por democratas e republicanos - foi inicialmente ignorada, mas o governo de George W. Bush vem adotando algumas delas nas últimas semanas.
Os EUA e o Irã romperam relações diplomáticas em 1980, durante a crise da ocupação da embaixada americana em Teerã. Em novembro de 1979, após a Revolução Islâmica, a embaixada foi invadida por estudantes iranianos e 52 diplomatas dos EUA foram mantidos reféns até janeiro de 1981.
'INIMIGOS DO IRAQUE'
Durante o encontro dos dois embaixadores, um carro-bomba foi detonado em Bagdá, matando 24 pessoas. A explosão ocorreu no bairro de Sinak, de maioria sunita, e atingiu a mesquita de Abdul-Qadir al-Gailani. Mais de 70 pessoas ficaram feridas no atentado. 'Os inimigos do Iraque são os únicos que se beneficiam com esse ataque. Eles atacaram nossa casa, nossa religião, nossa irmandade', disse o responsável pela mesquita, Mahmoud al-Issawi.
A polícia iraquiana informou que 33 corpos, com sinais de tortura, foram encontrados ontem em Bagdá.
EXPORTAÇÃO DE MILITANTES
De acordo com o jornal New York Times, a guerra no Iraque, que por anos atraiu combatentes islâmicos estrangeiros, está agora exportando militantes e táticas tanto para países vizinhos quanto para outras partes do mundo. Muitos desse militantes saem do Iraque infiltrados em grupos de refugiados que cruzam as fronteiras do país, segundo informações fornecidas por membros de governos do Oriente Médio, dos EUA e da Europa e também por líderes de milícias no Líbano, na Jordânia e em Londres.
Há também os insurgentes que são enviados para missões específicas em outros países. É o caso de Muhammad al-Darsi, que foi preso antes de pôr em prática um plano de explodir o aeroporto de Amã, na Jordânia. Na semana passada, o Exército libanês descobriu que havia 50 iraquianos lutando com a milícia Fatah al-Islam no campo de refugiados palestinos de Nahr el-Bared, no norte do Líbano. O líder do grupo teria ligação com Abu Musab al-Zarqawi, chefe da Al-Qaeda no Iraque morto em junho de 2006.
Bush visitou ontem o Cemitério Nacional de Arlington, na Virgínia, onde estão enterrados soldados americanos mortos na guerra.