Título: Balança comercial está revogando leis da economia, diz governo
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/06/2007, Economia, p. B4

O desempenho da balança comercial está 'revogando leis da economia', disse ao Estado o secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Armando Meziat. Apesar da queda na cotação do dólar em relação ao real, as exportações seguem fortes. E, dessa vez, não é só a alta dos preços no mercado internacional que está mantendo as vendas ao exterior, como aconteceu em 2006. Os dados mostram também crescimento nas quantidades embarcadas.

No ano passado, o preço médio dos produtos exportados pelo Brasil cresceu 12,5%. Em quantidade, porém, as vendas ao exterior aumentaram apenas 3,2%. Os dados de janeiro a maio de 2007 mostram que agora o jogo está quase empatado. Os preços subiram 9,4% e a quantidade, 8,3%.

No total, as exportações de janeiro a maio somam US$ 60,097 bilhões, um valor 20% maior do que o registrado nos primeiros cinco meses de 2006. As vendas estão crescendo ao dobro da velocidade prevista pelo governo quando fixou a meta de exportações em US$ 152 bilhões em 2007.

'Há certamente uma mudança estrutural da economia brasileira no tocante às exportações', afirmou Meziat. Ele acredita que o setor produtivo está se tornando mais moderno, mais produtivo, capaz de vender mercadorias mais elaboradas e caras. Por isso, acredita ele, as vendas ao exterior continuarão em alta. 'Se fizermos a lição de casa, melhorando a infra-estrutura, o transporte, os portos, não vejo limites para o crescimento das exportações brasileiras.'

O entusiasmo do secretário, porém, não é compartilhado por especialistas. 'A estatística é o cemitério da informação', disse o diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Roberto Giannetti da Fonseca, citando o próprio pai.

Para ele, os números vistosos da balança comercial mascaram o fato de que o comércio exterior brasileiro está cada vez mais ancorado em produtos básicos, enquanto os industrializados perdem espaço. 'O perigo é a desindustrialização, que significa desemprego, menor valor agregado, menos tecnologia e uma precarização do comércio exterior brasileiro.'

O alerta é confirmado pela análise dos números feita pelo vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro. O tão comemorado crescimento no volume das vendas ao exterior é explicado por um maior vigor no embarque de produtos básicos como minério de ferro, petróleo e soja, cuja demanda está em alta porque o mundo está em crescimento. 'Precisamos ver o que acontecerá se a economia chinesa tiver um resfriado mais forte', disse. 'Para nossa sorte, parece que isso não acontecerá tão cedo.'

A força exibida até agora pela balança é 'anabolizada', concordou o economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Edgard Pereira. 'É uma saúde totalmente dependente da economia mundial.' A venda de manufaturados, que daria mais sustentação ao desempenho da balança comercial, está em desaceleração, disse o diretor do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes), Roberto Iglesias. 'São produtos que sentem mais o efeito do câmbio.' Ele acredita que o desempenho das manufaturas continuará em queda ao longo deste ano.

Giannetti da Fonseca lembra que as exportações de manufaturados já chegaram a representar 60% das exportações do País. Agora, a taxa está em 53,5%, considerando o período de janeiro a maio de 2007. Ele aponta a taxa de juros, ainda elevada em comparação com outros países, como um fator que agrava a desvalorização do dólar, ao estimular o ingresso de recursos em busca de ganhos financeiros.

A participação ainda grande dos produtos industrializados na pauta exportadora, superior a 50%, é citada pelo secretário Armando Meziat para rebater a avaliação que o Brasil está excessivamente dependente dos produtos primários. José Augusto de Castro lembra, porém, que as estatísticas de produtos manufaturados incluem commodities como açúcar refinado e etanol. São eles os principais responsáveis pelo aumento de 6,45% nas quantidades exportadas dessa categoria de produtos. 'Uma das vocações do Brasil é o agronegócio. Vamos dispensar isso?', questionou Meziat. 'É lógico que queremos fazer crescer a exportação de produtos com maior valor agregado, mas a exportação é resultado de tudo o que ocorre na economia brasileira.'