Título: PF aposta em tecnologia e arapongas
Autor: Mendes, Vannildo e Macedo, Fausto
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/05/2007, Nacional, p. A12
Na hierarquia, a Diretoria de Inteligência Policial está no terceiro nível de importância, mas na prática exerce papel crucial na estrutura da Polícia Federal. Ela é a alma das grandes operações que a PF deflagrou nos últimos quatro anos. Quase 400 missões que levaram à prisão 5,5 mil políticos, empresários e servidores públicos e desfalcaram até mesmo parte de seus quadros, 71 agentes e delegados capturados, supostamente envolvidos em esquemas de corrupção e fraudes.
Integram a diretoria quatro divisões: Inteligência, Contra-Inteligência, Doutrina e Antiterrorismo. O segredo é a sua arma. Os arapongas movimentam-se discretamente, ora dissimulados de trabalhadores braçais, ora no papel de executivos.
Como no cinema, eles seguem, filmam, gravam e fotografam seus alvos em restaurantes, hotéis, ruas, em carros e até nos banheiros de shopping.
Ao final da apuração, que não raro se estende por até um ano, volumosos dossiês chegam aos tribunais e dão sustentação aos pedidos de prisão em massa e de busca e apreensão em residências, escritórios e gabinetes de autoridades sob suspeita. Com a chancela judicial, a Inteligência recruta a força armada da PF para executar a etapa final da tarefa. Um efetivo geralmente não inferior a 300 homens e mulheres, munidos de metralhadoras, pistolas e fuzis, sai às ruas para desmontar organizações criminosas.
Muitas vezes as operações se transformam em espetáculos para a TV que expõem sua presa ao ridículo e à humilhação. Os próprios federais captam as imagens mais fortes com suas câmaras portáteis e depois as distribuem aos telejornais. Na Operação Navalha, 47 presos, esse método de atuação provocou protestos, de renomados criminalistas, juízes, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e entidades afins e de ministros da mais alta corte, o Supremo Tribunal Federal (STF).
Reclamam de excessos e da insolência dos federais, a quem atribuem vazamento de informações confidenciais, como dados bancários, fiscais e diálogos que a escuta telefônica pegou.
A base das ações da Inteligência são as interceptações. Por meio delas os federais espreitam seu alvo. É um trabalho metódico. O grampo virou regra, mas com respaldo do Judiciário. No início, os arapongas acionavam o Guardião, supergrampo com capacidade para pegar mais de 400 ligações simultaneamente. O Guardião já foi mais importante. Hoje é praticamente uma lenda, tamanho o salto tecnológico.
Os federais se instalam em uma base secreta. A Inteligência nunca aloja seu pessoal na sede regional da PF. A estratégia é evitar a bisbilhotagem de colegas locais que, eventualmente, podem ter relacionamento com investigados.