Título: Debate sobre projeto divide intelectuais
Autor: Amorim, Silvia
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/06/2007, Nacional, p. A13

A proposta de instituição legal de cotas para negros em universidades federais e empresas estatais está provocando debates cada vez mais acirrados na sociedade brasileira. Uma das questões básicas da polêmica é a definição do que está por trás da falta de acesso dos negros ao ensino superior: fatores raciais ou sociais?

Em recente debate promovido pelo Estado e transmitido ao vivo pelo site estadao.com.br, ficou evidente que a busca de soluções para o problema depende da resposta a esta pergunta. Na ocasião, o geógrafo Demétrio Magnoli, um dos principais autores do livro Divisões Perigosas (coletânea de artigos de pensadores contrários à instituição de cotas raciais), ressaltou que o Brasil é um país de profundas desiguldades sociais, que não podem ser confundidas com desigualdades raciais.

Para ele, em vez de ¿dividir o Brasil em raças, em nações dentro de nações¿, é preciso ampliar e melhorar os serviços públicos, tais como saúde e educação, para todas as pessoas: ¿Se nós investirmos nas escolas públicas, principalmente nas escolas da periferia, dos bairros pobres, das favelas, nós estamos beneficiando principalmente os pobres e as pessoas de pele escura, porque é verdade: existe mais pobre entre pretos e pardos. Se seguirmos o caminho da política racial, podemos estar preparando o caminho para a guerra civil no futuro.¿

O professor e administrador de empresas Hélio Santos, um dos mais antigos defensores da políticas afirmativas para negros e das cotas, rebateu Magnoli afirmando que a causa da discriminação é racial. Lembrou que os negros, após 354 anos de escravidão, não foram beneficiados com nenhum tipo de política de integração à sociedade: ¿Os imigrantes chegaram ao Brasil e receberam terra, enquanto a população negra era impedida de ter terra.¿

Na opinião de Santos, o fato de poucos negros terem acesso à universidade e serem preteridos em exames de seleção profissional em diversas empresas, por causa do fenótipo, indica que já existem cotas no Brasil: ¿Cotas de 100% para brancos estão aí desde sempre.¿

DESCONFORTO

A ministra Matilde Pereira, da Secretaria da Igualdade Racial, tem se encontrado com parlamentares em Brasília, num esforço para que o Congresso aprove o projeto de lei 73/99, que institui as cotas em escolas federais de ensino superior.

Matilde causou polêmica e criou desconforto para o governo quando, em março, disse em entrevista à BBC Brasil que considerava ¿natural¿ a discriminação de negros contra brancos no Brasil. E explicou: ¿Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco... Quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou.¿

Em um país com história marcada pela miscigenação, a declaração foi vista como incitação ao racismo e provocou uma onda de reações. A ministra acabou recuando: trocou a palavra ¿natural¿ por ¿compreensível¿ e ressaltou que nunca aprovou nenhum tipo de racismo.