Título: Putin propõe escudo único com EUA
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Fonte: O Estado de São Paulo, 08/06/2007, Internacional, p. A15
Heiligendamm, Alemanha - O presidente russo, Vladimir Putin, propôs ontem que EUA e Rússia desenvolvam um escudo antimíssil conjunto no Azerbaijão, numa oferta que pode acabar com meses de mal-estar diplomático entre os dois países. No encontro particular com o presidente americano, George W. Bush, durante a cúpula do G-8 (mais informações no Caderno de Economia), Putin sugeriu que os dois países usem a base russa de Gabala, no Azerbaijão, para desenvolver o escudo conjunto. De acordo com Putin, desse local seria possível proteger a Europa inteira de um eventual ataque do Irã. Além disso, Putin deixou claro que o escudo no Azerbaijão acabaria com as recentes tensões diplomáticas. ¿Isso também nos permitiria não direcionar nossos mísseis (para a Europa). Ao contrário, abriria as condições para um trabalho em conjunto¿, afirmou o presidente russo.
A proposta parece ter sido bem recebida pelos americanos. Bush assinalou que a oferta é ¿interessante¿ e será estudada. ¿Disse a Vladimir que estou ansioso para receber sua visita (nos dia 1º e 2 de julho) na casa de meus pais em Maine, onde poderemos continuar essas discussões¿, afirmou Bush após o encontro. Ele ressaltou a trégua diplomática entre Moscou e Washington. ¿Muitas pessoas não gostam quando EUA e Rússia discutem e isso cria tensões. A Rússia é um grande país, assim como os EUA. É muito melhor poder trabalhar juntos¿, afirmou. Em mais um indício de que a oferta interessou aos EUA, o assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, Stephen Hadley, afirmou que a proposta russa é ¿arrojada¿. Moscou e Washington criarão agora um grupo de especialistas militares e diplomatas para discutir o assunto.
CRISE
A tensão entre Washington e Moscou começou no início do ano, quando os EUA anunciaram um plano para instalar dez baterias antiaéreas na Polônia e um radar na República Checa - que fariam parte do escudo. Irritada com a presença militar americana em países perto de sua área de influência, a Rússia acusou os EUA de ameaçar a segurança russa. O governo americano, afirmando que o escudo protegeria contra um eventual ataque iraniano ou norte-coreano, ignorou a acusação e iniciou negociações com a Polônia e a República Checa.
A crise ampliou-se quando a Rússia acusou os EUA de fomentar uma corrida armamentista na Europa e congelou sua participação no Tratado de Armas Convencionais europeu, que regula a movimentação militar na região. Logo depois, a Rússia ameaçou direcionar seus mísseis para a Europa, caso os EUA não desistissem do plano. A secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, chegou a afirmar que a posição russa sobre o assunto era ¿ridícula¿. Na véspera do G-8, Bush criticou a falta de reformas democráticas na Rússia.
GABALA
A estação de radar de Gabala, no norte do Azerbaijão, é uma das maiores do mundo. Funcionando desde 1985, o local é controlado pelos russos, que pagam aluguel para o governo azerbaijano. O radar de Gabala é capaz de monitorar todo o Oceano Índico, Oriente Médio e norte da África, detectando mísseis disparados dessas regiões.
Os russos usaram Gabala para monitorar as guerras Irã-Iraque (1980-1988), do Golfo (1991), do Afeganistão (1979-1989) e do Iraque (2003).
De acordo com Moscou, a localização da base no Azerbaijão permitirá que o escudo antimíssil proteja todo o continente europeu - e não apenas partes da Europa, como no plano original americano. Especialistas afirmam que a instalação do escudo na região da Polônia e República Checa deixaria a parte sudeste da Europa exposta, por causa de sua proximidade com o Irã. O sistema de escudo antimísseis utiliza um radar para detectar o lançamento de um míssil, acionando o disparo de um projétil para interceptá-lo.