Título: 'Nós somos uma fonte de estabilidade'
Autor: Domingos, João
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/06/2007, Nacional, p. A18

O senhor costuma dizer que tem um papel na defesa do Estado democrático na América Latina. Continuará vigilante?

Eu e o Raúl Alfonsin (ex-presidente da Argentina), sobretudo nós dois, temos o dever de ficar alertas. Eu ficarei sempre aqui, de qualquer maneira, sempre em defesa dos princípios democráticos. O fato de ser ex-presidentes nos dá sempre a condição de falar. Não vamos deixar de ser ex-presidentes. Seremos as vozes em defesa da democracia, sempre.

O senhor considera que a manutenção do Estado democrático é a saída para o desenvolvimento da América Latina?

A redemocratização da América Latina foi a maior depois da 2ª Guerra Mundial. Foi um processo bem menos doloroso do que aconteceu em Portugal e na Grécia. E quando iniciamos a negociação para a integração da América Latina, começando aqui pelo Cone Sul, a primeira diretriz que concebemos, eu e o Alfonsin, e também o Sanguinetti (Julio Sanguinetti, ex-presidente do Uruguai), foi justamente estabelecer a cláusula democrática. Isso era uma necessidade para que pudéssemos redemocratizar todo o continente sul-americano. Tanto é assim que naquela época o Paraguai não entrou, porque lá ainda estava o Stroessner (Alfredo Stroessner, ex-presidente que acabou se exilando no Brasil em 1989). Acho que a democracia não é só uma definição de ciência política. É sobretudo um estado de espírito. Churchill, por exemplo, não foi buscar uma definição elaborada para falar sobre a democracia. Apenas disse que era o regime no qual às 6 horas da manhã, se a campainha de sua casa toca, você tem certeza de que é o leiteiro ou o padeiro; nunca a polícia política. Por isso insisto: não basta dizer que tem a instituição, quando ela não é democrática, mas meramente formal.

E no Brasil? Acha que a democracia se consolidou por aqui?

O Brasil teve muita sorte. Também passamos pelo processo da descrença com a democracia, porque ela não resolveu nossos problemas. Mas tivemos a sorte de ter um presidente que, embora sendo um operário, tem uma noção perfeita dos valores da democracia. Ele sabe que foram esses valores que deram a ele essa condição de chegar ao poder.

O senhor assumiu a Presidência imediatamente depois do fim do regime militar. Considera-se fiador da democracia exercida aqui?

Nós exercemos a liberdade. Então, quando a liberdade começou a florescer, as instituições começaram a se fortificar. E se tornaram fortes. Eu até dizia: quero que o presidente seja fraco para que a sociedade seja forte. Isso, na realidade, ocorreu. Fizemos a transição democrática, com uma Constituinte, com eleições em todos os anos em que fui presidente. Saímos com uma democracia consolidada, sem nenhuma sombra de retrocesso.

O Brasil, por seu tamanho e por sua importância na região, é responsável pela manutenção da democracia na América Latina?

Por ser uma grande democracia, o Brasil tem uma responsabilidade muito grande na estabilidade no continente. Temos responsabilidade grande também de exercer esse ponto de vista institucional de manutenção da democracia. É uma responsabilidade nossa, da Argentina e acaba sendo de outros países também. O Brasil fez uma transição sem nenhuma hipoteca militar. O Chile até hoje paga várias hipotecas. Nós conseguimos chegar à democracia sem isso. Por isso, somos uma fonte de estabilidade das instituições na América Latina.