Título: Inconvenientes podem surgir a longo prazo
Autor: Lapouge, Gilles
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/06/2007, Internacional, p. A20

Nicolas Sarkozy, o novo presidente da França, é um trator. Ele está em toda parte. Parece ter à sua disposição uma dezena de sósias. Pratica cooper, visita seus amigos do show business, vai acertar a questão da Airbus em Toulouse, dá um pulo na Alemanha para assistir à reunião do G-8 e encontra-se com todo mundo, de Bush a Putin. Um tornado.

Ele realizou encontros eleitorais dias antes do primeiro turno, hoje, das eleições legislativas. Um observador distraído imaginaria que a França é um país curioso: ela tem apenas um político, um certo Sarkozy, que governa tudo: as relações com a África, a questão das creches infantis, o problema da pesca em água doce, o estatuto do Tibete, a dura sobrevivência dos ursos polares, etc.

Esse ativismo furioso funciona. As primeiras semanas de poder enriqueceram e iluminaram sua imagem. Hoje ele é bem mais popular do que quando foi eleito. Dois em cada três franceses se declaram encantados por ter um presidente assim. Ninguém ousa se opor a suas decisões.

Os sindicatos, que rosnavam como leões um mês atrás, viraram cordeiros. O Partido Socialista, a única força política alternativa à direita de Sarkozy, está em frangalhos e subsiste em pequenos pedaços aqui e ali.

Isso explica por que as eleições legislativas de hoje não estão provocando grande interesse. Os resultados já são conhecidos. O partido de Sarkozy, a União por um Movimento Popular (UMP), deve obter maioria absoluta, talvez até passe de 400 cadeiras, enquanto os socialistas não chegarão a 180 assentos.

PODERES TOTAIS

Com um Parlamento seguro pela coleira, Sarkozy terá, de fato, plenos poderes. É saudável que existam pessoas que contestem, que gritem um pouco, que critiquem, para corrigir os excessos, os erros cometidos pelo poder absoluto.

O que agrava essa situação incômoda é que, mesmo no interior do governo montado por Sarkozy, os ministros, entre eles o primeiro-ministro, não passam de executores, de sombras, de empregados subservientes.

Raramente uma concentração de poderes em uma única pessoa terá sido tão completa na França do pós-guerra.

Outra novidade é que há apenas dois partidos políticos na França. Até recentemente, havia dois grupos dominantes - a direita e o Partido Socialista -, mas havia também pequenos partidos que permitiam matizar as maiorias.

Existiam pelo menos três formações de direita (a Frente Nacional, a União por um Movimento Popular, o Movimento pela França) e três formações de esquerda (os socialistas, os radicais de esquerda e os comunistas, além de algumas formações ainda menores, tipo trotskistas).

Ora, na eleição de hoje, os pequenos partidos provavelmente serão esmagados, quase eliminados. A disputa vai ser travada entre duas forças - a direita e a esquerda -, que se enfrentarão num combate frontal. Uma França bipolar. Uma Assembléia Nacional maniqueísta, com todos os excessos, todos os bloqueios, e a ausência total de flexibilidade.

É verdade que esses perigos não são imediatos. Por enquanto, a França é toda euforia por ter encontrado um presidente tão brilhante, tão eloqüente, tão divertido às vezes e tão poderosos como Sarkozy.

É a longo prazo que poderão surgir inconvenientes. Que inconvenientes? A combinação de inércia e rigidez que ameaça transformar os conflitos da França em confrontos sociais graves ou até dramáticos, na falta da possibilidade de exprimir essas tensões na batalha política.