Título: 'Doem sua geladeira extra', pede Chávez
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Fonte: O Estado de São Paulo, 12/06/2007, Internacional, p. A18

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, recomendou aos 5 milhões de inscritos em seu partido que abram mão de bens que não usam, como 'uma geladeira, um caminhão ou um ventilador a mais', para que se tornem 'verdadeiros socialistas'.

'Quem tem uma geladeira da qual não necessita, que a coloque na Praça Bolívar (em Caracas). Quem tem um caminhão do qual não precisa, um ventilador, um fogão... desprenda-se de algo. Não sejamos egoístas. Eu exijo!', afirmou o líder venezuelano durante o programa Alô, Presidente! transmitido no domingo à noite para todo o país.

Chávez ressaltou que, 'ao contrário de Jesus Cristo', nunca pedirá aos venezuelanos para darem 'toda a sua riqueza para os mais carentes', mas apenas aquelas desnecessárias. Ele prometeu doar US$ 250 mil do próprio bolso - um prêmio recebido da Líbia - para dar início à campanha. 'Vamos ver quem segue o exemplo', desafiou, acrescentando que só quer em seu partido 'verdadeiros socialistas'.

Para aqueles que não têm riquezas, o pedido foi outro: 'Façam trabalho voluntário nos sábados e domingos, sem cobrar nada, para ajudar as comunidades. Não há revolução socialista sem trabalho voluntário', afirmou o líder venezuelano.

Desde que assumiu seu terceiro mandato, em janeiro, Chávez está promovendo uma série de reformas para implementar na Venezuela o modelo que ele chama de 'socialismo do século 21'. A Cantv, maior empresa privada do país, teve sua reestatização oficializada há um mês como parte dessas reformas, que também incluíram a criação do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) para reunir todos ramos do chavismo.

Inspirado no líder cubano Fidel Castro, Chávez não se cansa de atacar os 'valores consumistas' dos países capitalistas. No entanto, boa parte dos venezuelanos parece não concordar com tais críticas. De acordo com algumas pesquisas, mais de 80% dos habitantes rejeitam a adoção no país de um regime semelhante ao que existe em Cuba e 45% vêem com desconfiança o socialismo do século 21.

Ainda, graças aos altos preços do petróleo e ao descontrole dos gastos públicos, a Venezuela vive um boom de consumo como nenhum outro país latino-americano. Só no último ano, as vendas de roupas e calçados aumentaram 130% e as de alimentos, mais de 20%. A fila de espera para comprar alguns automóveis chega a dois anos e, por falta de investimentos no setor produtivo, há períodos em que açúcar e carne somem das prateleiras dos mercados.