Título: 'A Rodada Doha já estava morta'
Autor: Puliti, Paula
Fonte: O Estado de São Paulo, 22/06/2007, Economia, p. B7
Para Albert Pfeifer, diretor-executivo do Conselho de Empresários da América Latina (Ceal), entidade que reúne 340 grandes empresários latino-americanos, as negociações para liberalização do comércio mundial têm sido um fiasco há muito tempo. ¿Ninguém quer jogar a última pá de cal no cadáver, e se tenta ressuscitar uma coisa que tem muita dificuldade de avançar.¿ Para ele, seria preciso mudar o foco das discussões para temas do futuro, como serviços e propriedade intelectual.
Como o sr. avalia o encontro do G-4 que terminou antes do previsto e sem qualquer resultado?
O encontro em si não foi um fiasco. O fiasco tem sido essa negociação já há alguns anos. Basicamente, esse encontro buscou juntar as quatro principais economias envolvidas no processo, após as promessas de janeiro no âmbito do World Economic Forum, em que os líderes políticos se comprometeram a fazer com que as negociações avançassem. Existe o desejo político de fazer com que as negociações avancem, mas é um desejo defensivo do tipo ¿eu não quero ser responsável pelo fracasso¿. A expressão disso é quando se vê as pessoas apontando o dedo para as outras, dizendo ¿o responsável pelo fracasso é ele¿. Ninguém quer ficar com o ônus de ser acusado como o responsável pelo malogro. De outro lado, as posições são quase irreconciliáveis. Há um interesse geral difuso de aumentar a liberalização comercial e de que o multilateralismo é a maneira para fazer isso. Mas hoje não é uma questão de interesse, e sim de posições. E elas são muito distantes. É a questão dos subsídios agrícolas nos EUA, a proteção tarifária e de cotas na Europa e as barreiras a produtos industrializados nos países em desenvolvimento.
O resultado dessa reunião representa o enterro da Rodada Doha?
Vou usar uma metáfora. Isso parece aquelas tumbas maias, em que um rei tinha uma tumba, vinha o rei seguinte e punha uma tumba maior em cima, vinha outro rei e punha outra tumba ainda maior, formando aquelas pirâmides que hoje são tão belas e que as pessoas visitam no mundo maia.É enterro em cima de enterro. Ninguém quer jogar a última pá de cal no cadáver, e se tenta ressuscitar uma coisa que tem muita dificuldade de avançar, justamente por causa da questão agrícola e dos manufaturados. A minha opinião é que se está olhando pelo espelho retrovisor e não para frente, para o futuro. Acho que devia focar em outros temas. Enquanto ficar focando nesses temas não vai avançar mesmo, a não ser que haja um terremoto político ou um milagre econômico, tecnológico, que quebre paradigmas.
Qual seria o novo foco?
O foco da economia mundial no século 21 é serviços, não é mais agricultura nem indústria. E temas como propriedade intelectual, que vários países, incluindo o Brasil, não querem discutir.
Onde o Brasil errou?
É uma pergunta boa, que vai depender da régua que se vai usar para medir o tamanho do erro ou do do acerto. Em termos de política externa, isso pode ser discutido no sentido de que o Brasil é um país intermediário, uma potência industrial e agrícola, e pode ter apostado no multilateralismo, na OMC, porque isso traria não apenas ganhos econômicos importantes para o País, como também políticos, porque este governo brasileiro tem outras pretensões, como o assento no Conselho de Segurança da ONU e liderança dos países do Sul. Se a régua para medir é desenvolvimento nacional, o Brasil errou, porque enquanto ficou cultivando a possibilidade de a OMC deslanchar e abrir oportunidades de desenvolvimento para trabalhadores e empresários brasileiros, nada mais andou. O Brasil não fez acordo de livre comércio nenhum nesses últimos anos. A pouca coisa que tem são acordos de preferência absolutamente irrisórios com Índia, com África do Sul. Além disso, a América do Sul e o Mercosul só retrocederam em termos de estabilidade comercial e política. Eu não diria que tenha sido um fracasso, foi uma escolha num cenário que se mostrou mal-sucedida.
Sem Doha, qual seria o próximo passo do Brasil?
Não se pode acreditar que não haja uma retomada, pois pode ter sido um lance tático e daqui a uma semana pode voltar. Mas, sem OMC, o Brasil pode fazer enveredar pelo que outros países já fazem que é a rede de acordos bilaterais e plurilaterais. Só que é mais complicado, porque em vez de uma tem de fazer várias negociações ao mesmo tempo com parceiros diferentes.