Título: Senador do PSOL levanta suspeita contra Salgado
Autor: Rosa, Vera e Samarco, Christiane
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/06/2007, Nacional, p. A6

Menos de 24 horas depois de ter assumido a função de relator do Conselho de Ética do Senado, Wellington Salgado (PMDB-MG) renunciou ao cargo, irritado com o adiamento, pela terceira vez, do processo sobre o presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL). Ao comunicar sua renúncia, Salgado disse que o conselho está se prestando a um papel que não deveria. 'Aqui começou um grande jogo que eu não sei como vai acabar. É um jogo sujo, a luta pela coroa', afirmou. Em seguida, explicou que a coroa era uma referência à presidência do Senado.

Aliado de Renan, Salgado disse que havia sim condições de o relatório ser votado ontem. Na sessão, avisou que apresentaria apenas um 'aditivo' ao texto do antecessor no posto, Epitácio Cafeteira (PTB-MA) - que pedia o arquivamento do processo. Ele alegou que, ao avaliar a perícia da Polícia Federal sobre os documentos que Renan apresentou para provar seus rendimentos, todas as dúvidas foram elucidadas. 'O senador Renan respondeu sim à todas as dúvidas levantadas pela imprensa. A meu ver ele prestou sim todos os esclarecimentos.'

Sua renúncia foi prontamente aceita pelo presidente do Conselho de Ética, Sibá Machado (PT-AC). Salgado deve ser substituído por outro peemedebista. Os mais cotados são Leomar Quintanilha (TO) e Valter Pereira (MS). O novo relator deve ser definido até sexta-feira.

Na sessão, antes mesmo de Salgado renunciar, José Nery (PSOL-PA) pediu seu afastamento do cargo. Filiado ao partido que entrou com a representação contra Renan, Nery alegou que o fato de Salgado e Renan terem sido alvo de uma ação na Justiça de Goiás comprometeria sua decisão no conselho e se prontificou a entregar toda a documentação do processo.

O Estado publicou reportagem sobre o caso em agosto, quando Salgado assumiu a presidência da Comissão de Educação do Senado. De acordo com a denúncia, ele foi acusado de simular, em 1996, um contrato de comodato por 20 anos com a Campanha Nacional das Escolas da Comunidade, na época presidida por Renan, para ocupar um terreno de 5.388 metros, onde deveria ser edificada uma escola para crianças carentes. A cláusula 4 do contrato revela a existência de um documento paralelo definindo um pacto de compra e venda do terreno, onde hoje funciona a Faculdade Universo, da sua família, com 12 mil alunos. O terreno hoje vale cerca de R$ 4 milhões.

Em resposta, Salgado reconheceu a ação. 'Existe a ação pública, só que quem deu esta informação a V.Exa. deveria estar sob efeito de alguma substância proibida, de alguma erva daninha, não sei com quem é que V.Exa anda', ironizou.

Na época em que a reportagem foi publicada, Salgado disse ao Estado que quando ocorreu a compra do terreno não conhecia Renan. 'Ele só assinou o contrato, quem vendeu foi o outro presidente', alegou. Renan também negou a denúncia.