Título: Oposição e até aliados já discutem sucessão
Autor: Rosa, Vera e Samarco, Christiane
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/06/2007, Nacional, p. A6

A frágil situação do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), despertou a cobiça por sua cadeira e o debate em torno da sucessão já começou nos bastidores do Congresso. Enquanto o governo assiste impassível ao 'sangramento' de Renan, a oposição aposta no desgaste do adversário para acelerar a troca de comando na Casa e até aliados já planejam alternativas.

'Para cortar essa intriga pela raiz, aviso que, se Renan cair, eu não serei candidato', afirmou José Agripino (RN), líder do DEM no Senado derrotado pelo peemedebista, em fevereiro, quando disputou a presidência da Casa. Irritado com rumores de que sua ação tem como único objetivo a cadeira azul de Renan, Agripino fez um desabafo.

'Daqui a pouco vão dizer que eu inventei a Mônica', esbravejou, numa referência à jornalista Mônica Veloso. 'Virei bode expiatório dessa crise!' Renan foi reeleito para o cargo há quatro meses e meio, com o apoio do Palácio do Planalto, para um mandato de mais dois anos. Se renunciar ou for cassado, o regimento do Senado prevê a realização de novas eleições em 30 dias. Ele nega com veemência que vá atender aos apelos para abrir mão do cargo.

O debate sobre a sucessão do presidente do Senado mal começou e já surgiram os primeiros sinais de que a eventual troca pode provocar disputa na base governista e prejuízos ao Planalto. Embora o nome do senador José Sarney (PMDB-AP) tenha surgido como a primeira e mais forte alternativa do PMDB para se manter à frente da direção do Senado, setores da oposição reagiram mal à possibilidade e se movimentam em busca de outra saída.

É o caso de boa parte do PSDB, que começou a discutir o assunto na terça-feira. Tucanos de expressão nacional, como o líder Arthur Virgílio (AM), rejeitaram a alternativa Sarney, classificada por dirigentes do partido como 'um retrocesso'. Na prática, o PSDB não chegou a acordo sobre os rumos a seguir caso o presidente do Senado seja defenestrado. 'Isso seria pôr o carro na frente dos bois', alegou Virgílio. 'Ele (Renan) sempre foi um bom presidente até para nós, da oposição: sabe dialogar e fazer concessões.' Sarney já comandou o Senado nos governos de Lula e Fernando Henrique e conta com a simpatia de setores do DEM para voltar ao posto. Mas também há, no DEM, quem defenda a tese de que o melhor, agora, é procurar outro perfil menos identificado com o governo.

REGIMENTO

No caso de afastamento voluntário de Renan, deixando vaga a cadeira de presidente, o vice Tião Viana (PT-AC) terá prazo de até cinco dias úteis para convocar nova eleição. O regimento também diz que vale a regra da proporcionalidade das bancadas, que confere ao maior partido - o PMDB, no caso - a prerrogativa de apontar o nome do presidente a ser eleito pelo plenário.

Entre os peemedebistas mais experientes há a convicção de que ninguém se elegerá presidente sem o apoio de Renan. Mesmo na remota hipótese de renúncia, a avaliação predominante é a de que o atual presidente do Senado será o grande eleitor. Por isso mesmo, líderes da oposição já estão tratando de se articular com ele, preparando o terreno para uma aliança em torno de um perfil mais 'independente' em relação ao Planalto. De início, dois nomes foram lembrados: Gerson Camata (ES) e Garibaldi Alves Filho (RN).