Título: Pós-ocupação traz discussões inevitáveis
Autor: Marchi, Carlos
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/06/2007, Vida&, p. A34

Desgastados, a Universidade de São Paulo e o governo estadual precisam se abrir para um debate público que não exclua o movimento estudantil. Pauta: as demandas levantadas por eles na ocupação da reitoria. O alerta é de três acadêmicos preocupados com o dia seguinte da instituição. Lembram: é tradição no ambiente universitário enclausurar-se diante dos problemas internos e externos.

¿A USP ficou muito exposta. Nem sempre de forma correta. Acredito que a reitora (Suely Vilela) deveria pedir uma reunião imediata com o Conselho Universitário para discutir as reivindicações de docentes, funcionários e alunos¿, aconselha o ex-reitor Adolpho José Melfi. ¿Restam aspectos fundamentais que devem continuar em discussão, e o ideal seria que o governador (José) Serra abrisse um debate público sobre a questão da criação da Secretaria de Ensino Superior¿, acrescenta o professor da Faculdade de Direito Dalmo Dallari.

Para o coordenador do Núcleo de Estudos da Violência, Sergio Adorno, a crise da USP foi prejudicial para governo, reitoria, docentes, funcionários e alunos, mas cria uma oportunidade para debater questões que estavam sendo deixadas de lado. ¿Ficou claro que há um descompasso entre a estrutura da universidade e o movimento estudantil¿, afirma Adorno. ¿É preciso enfrentar questões como o problema da carreira docente, a participação estudantil nas universidades estaduais e a eleição do corpo diretivo.¿

Melfi, que antecedeu a reitora Suely, não deixou de questionar a motivação política dos estudantes, uma vez que, mesmo depois de verem a maior parte das principais reivindicações atendida, continuaram ocupando a reitoria. Mas salienta: ¿Em toda crise a gente cresce. Agora é hora de separar o joio do trigo. A questão da falta de professores e outros problemas na sala de aula não podem deixar de ser debatidos.¿

Dallari, por sua vez, cobra do governo estadual mais diálogo antes de agir, como quando da publicação dos decretos que, na visão da própria academia à época, podiam ferir a autonomia universitária. ¿É lamentável que os estudantes tenham sido obrigados a chegar a esse ponto para ser ouvidos, mas acredito que a partir de agora a atitude será outra.¿

Autor de um artigo crítico sobre a crise da USP, Adorno entende que o episódio tocou de ¿maneira perturbadora¿ a sociedade, o que obriga as universidades a debaterem seu papel. ¿Elas precisam ser a consciência crítica e também estar à frente do seu tempo. É um espaço diferenciado do mercado, da política e dos movimentos sociais¿, finaliza.