Título: Governo pressiona por saída, mas não gosta do acordo
Autor: Marchi, Carlos
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/06/2007, Vida&, p. A34
Se o governo estadual estava insatisfeito com a incapacidade da reitora Suely Villela em negociar a desocupação da reitoria da USP, ficou mais insatisfeito ainda com os termos do acordo que ela celebrou com estudantes e funcionários. O acordo chancelado por ela criou uma ¿panela de pressão¿ no campus ao aceitar a idéia de debates permanentes para a reforma do estatuto da USP, exigência apelidada de ¿estatuinte¿. A avaliação é que a aceitação desse item vai criar um foco constante de tensão e uma motivação perfeita para novos atos de greve e ocupação. E ela ainda tem dois anos e meio de mandato.
Nos últimos dias, Suely ouviu do governo uma dura cobrança por uma solução, ante o contraste da Unesp, em Araraquara, onde os invasores foram removidos pela PM sem problemas. A reitora recebeu claros recados de que pôs a perder todo o planejamento do governo José Serra para as universidades estaduais.
O único caminho de negociação que ela construiu foi, na verdade, sugerido pelo advogado Idibal Piveta, que já tinha convencido os estudantes a aceitarem a mediação da jornalista Rose Nogueira, presidente do Conselho Estadual de Defesa da Pessoa Humana (Condepe) e da ONG Tortura Nunca Mais. No primeiro momento, a reitora não aceitou, mas um telefonema do senador Eduardo Suplicy (PT-SP), no dia 21 de maio, acabou por convencê-la a aceitar a presença de Rose, que também é assessora do senador.
Foi providencial. Aos poucos, Rose ganhou a confiança dos estudantes e da reitora e construiu lentamente o acordo. Ontem, ao deixar o prédio da reitoria com os estudantes, ela comentou que ficou amiga dos dois lados. Segundo Rose, a maior dificuldade na negociação foi o ¿democratismo¿ dos estudantes. Mais de uma vez, a proposta deles foi aceita pela reitora, mas os líderes da ocupação insistiam em referendá-la em assembléias - embora o conteúdo fosse de autoria deles.
Na verdade, levar tudo para a assembléia era uma exigência dos grupos de extrema esquerda que dominavam a ocupação (PSTU, PSOL e PCO, além da central Conlutas). Nas assembléias, seus líderes radicalizavam e ganhavam sempre a adesão da maioria - assim, o acordo nunca era aprovado. ¿Eles queriam ficar lá eternamente¿, contou Rose ao Estado.
Ela conquistou a confiança dos estudantes paulatinamente, mas entende que eles passaram a vê-la com mais respeito numa das primeiras reuniões com o secretário de Justiça, Luiz Antonio Marrey. Na reunião, um estudante da USP Leste subiu numa cadeira e vociferou:
- Quero avisar ao governo de São Paulo que vou resistir até a morte!
Na volta à reitoria, Rose reuniu a turma e repetiu para eles um conselho que tinha ouvido de Carlos Marighella, seu superior na Aliança Libertadora Nacional (ALN): ¿Nunca entrem num lugar se não souberem como sair.¿ A idéia de sair no momento certo convencia os pequenos grupos, mas perdia nas assembléias.
IMPACIÊNCIA
Na semana retrasada, Rose levou à reitora uma lista de exigências dos estudantes. A reitora aceitou. Quando a jornalista voltou à reitoria, os estudantes decidiram que só sairiam dois dias depois. Rose lhes disse: ¿Gente, o anarquismo é maravilhoso, mas não consegue conviver com outras formas de organização social.¿ O acordo caiu mais uma vez. O vaivém nas decisões dos estudantes, que já impacientava o governo, começou a impacientar a mediadora, apesar do carinho que ela desenvolveu por eles.
Se Rose fracassasse, a reitora não tinha nenhum plano B. Dentro da USP, ela parecia imersa numa coqueteleira - recebia pressões de todos os lados. Para piorar, a direção da Adusp foi trocada no meio da crise. A entidade passou a ser presidida pelo professor Otaviano Heleni, do Instituto de Física, que é muito ligado ao deputado Ivan Valente (PSOL-SP).
Na reitoria ocupada, além da influência dominante dos partidos de extrema esquerda, professores estimulavam os invasores. Os casos mais notórios foram os de Luiz Carlos Martins, o Luizito, da ECA, Henrique Carneiro, da área de Letras, e o argentino Oswaldo Coggiola, da História. O primeiro se tornou o mentor-mor dos estudantes; o segundo deu várias palestras para animar a ocupação; o último, envolto num longo poncho, chegou a fazer um empolgado informe numa das assembléias estudantis.
No outro extremo, além do temor de uma reação mais explícita do governador José Serra, Suely era pressionada pela maioria silenciosa, que queria medidas mais eficazes e objetivas para desocupar a reitoria e fazer prevalecer, afinal, a verdadeira autonomia ferida.